Franz KAFKA. O Castelo. São Paulo: Martim Claret,
2007, 339p.
por Natanael Gabriel da Silva
Já faz tempo que não posto um texto. Neste período fiz
muitas leituras, mas o fascínio por Kafka quase se impôs. Dentre os livros que
li está O Castelo. Eu sei que Kafka
não é pra ser lido, mas degustado. Foi o que fiz.
Outra aventura minha é postar alguma coisa de Kafka. É quase
um suicídio literário. Algo que, para seguir a direção do próprio Kafka, não
tem sentido. Mas vamos lá.
Kafka foi um judeu-tcheco (1883-1924). Com exceção de
algumas cartas, escreveu em alemão. O
Castelo, dentre outras obras, seria
publicado postumamente, dois anos depois de sua morte. Kafka pertence ao
período da pergunta pela profundidade humana, no caminho do romantismo alemão,
e fez parte da cultura que dialogava com a filosofia da vida e existencial, ao
lado de Nietzsche, Freud, Wagner, e até mesmo de Martin Heidegger. Este, em
1927, conhecido no pensamento como o jovem Heidegger, tentaria dar um sentido
ao ser pelo caminho da sistematização do fenômeno da existência, em Sein und Zeit, ao entender que o sentido
do ser é um sendo para a morte, e esta é também dada como não tendo sentido. Já
Nietzsche vira a busca do sentido na superação da metafísica. Sua crítica à
filosofia clássica, estilhaçada a golpes de martelo, é conhecida. Isto é, para
Nietzsche não havia sentido, nem rumo no discurso aristotélico-tomista, do qual
a teologia cristã se dava diretamente como herdeira. A lógica deveria ser vencida
pela arte, mais precisamente pela tragédia, e, ao resgatar a profundidade
perdida, o ser humano poderia se reencontrar na vida como um ser além de si
mesmo (übermensch), impropriamente traduzido por “super-homem”: uma
potencialização da vontade tomada de Schopenhauer. Para Freud o sentido da vida
passava pelo desvelamento dos mitos havidos no inconsciente. Kafka, contudo,
entendeu que a falta de sentido na vida era absoluta. Para ele não havia saída
pra a existência, nem outra construção possível, nem vontade ou profundidade a
ser analisada e resolvida, senão a redução do ser humano à condição de um
inseto, e ainda a diminuição de sua identidade, simbolicamente identificado
pela primeira letra do próprio nome, simplesmente K.
Eu tinha um amigo, ex-professor da Unicamp, apaixonado por
Nietzsche e Bach, que me dizia assim: - A simplicidade me confunde. Falava e
ria solto. Pois é, isso se aplica a Kafka. Seus textos são de um enredo simples
e facilmente podem ser reduzidos a poucas frases, mas o que dá brilho à sua
literatura é a falta de sentido. Esta falta de sentido não está presente apenas
nos personagens, ou na história, mas faz parte da estrutura literária. Kafka
constrói longos discursos que não fazem qualquer sentido, apesar de possuírem
lógica. Não se tratam de elaborações desconexas, contraditórias, ou
imperfeitas. Nada disso. São fascinantes como leitura, cativantes como
expressões, mas simplesmente, sem sentido. A leitura vai forçando a expectativa
de um sentido futuro que nunca chega. É como um discurso cristão sobre o céu e
eternidade. É como ser arrastado para o futuro, e lá alguma
possibilidade de resposta, mas o futuro nunca chega, e a resposta migra para as
páginas seguintes, e sequer desaparece com o encerramento do texto. Ao terminar
a leitura, fica ressoando a voz da busca de sentido como se fosse profética e
que num dado momento até parece que será encontrada. Nem mesmo a ausência de
sentido poderia ser compreendida como sendo e tendo, pelo menos, sentido. Nisto
reside boa parte da genialidade de Kafka: ele consegue superar a falta de
sentido que poderia se transformar no sentido do que não possui sentido, num enforcamento silogístico. A
falta de sentido permanece, apesar do fim do texto, e continua na vida, porque
a vida, para Kafka, não tem sentido. E o ser humano, sem sentido, na vida sem
sentido, só pode se apresentar reduzido à singularidade de uma letra.
É claro que não faltaram, e não faltam, observações de
projeção da pessoalidade do próprio Kafka em seus escritos. A análise de sua
vida e possíveis dramas e traumas são, constantemente, alvo de reflexão e
interesse para se tentar encontrar algum sentido na própria vida de Kafka, o
que o colocaria em contradição. Mas os resultados se transformam em outras
obras e desdobramentos kafkianos, pois terminam também na ausência de sentido e
como sempre levantam mais perguntas que respostas.
O Castelo é um
não-lugar, protegido por um nada, já que nenhuma trilha ou estrada parecia
caminhar para ele. O castelo é um mistério representado por repartições,
secretários e o enigmático Klamm, com quem K. jamais conseguia contato, sempre
próximo e ao mesmo tempo longe, um perto distante que nunca é conquistado. Vez
por outra aparece algum personagem que diz ter estado com Klamm, mas as formas
de aproximação, os caminhos do encontro e as costuras de relacionamento capazes
de aproximar um de outro, jamais acontecem. K., que se dizia contratado para
ser agrimensor do castelo, não consegue assumir a função, nem chegar ao castelo,
nem a estar com autoridades que poderiam lhe dar algum sentido. Ele vai ter
oportunidade de observar o castelo, pensar e imaginar como este seria, mas sua
vida vai se deslocando de uma escola, onde acaba por trabalhar como bedel, à
taberna e ao vilarejo. K. se casa, mas não se casa, tem ajudantes, mas não tem,
conversa com superiores que não são superiores, subalternos do castelo, que não
são subalternos, se desloca por escritórios cujas portas parecem não ter fim,
localizados em espaços que parecem sem sentido. Há em tudo a linguagem do
exagero, do enigmático, de uma ausência de sentido que não permite nem mesmo
alguma pergunta.
Há sim uma burocracia em O
Castelo, assim como em O Processo, mas
sem sentido, é claro. Também esta
temática, a burocracia política, faz parte de seu tempo. Um tempo conturbado,
diga-se de passagem. Kafka, sem dúvida, é herdeiro da tragédia napoleônica, e faleceu depois da Primeira Grande Guerra; viu a
transformação política do Estado Alemão, como também a Revolução Russa. Modelos
de Estado e experimentos em políticas socioeconômicas fizeram parte de seu
tempo. Para Kafka tudo desembocava na completa e absoluta falta de sentido. O Castelo não representa um céu, como
parece preconizar, pois nele não se realizam sonhos. É um vazio de sentido. O castelo
ficava apenas lá, não tinha necessariamente conteúdo, mas se dava de maneira
imponente e destituído de um algo, cuja possibilidade de nele adentrar era
movida apenas pela homologação da atividade de K. como agrimensor. Um
emaranhado que não representava nada, e que poderia ser aproximado ao mito
religioso, mas apenas como referência, nunca como paraíso. Um inacessível que
não fazia diferença, serpenteado por estradas que não lhe davam caminho,
escondido pelas noites e envolvido nas sombras da indefinição.
A falta de sentido em Kafka é sistêmica. Faz parte de tudo.
Está nos diálogos, nas expectativas, na madorna e cadência literária cheia de
detalhes de nada, e as imagens vão sendo formadas sem qualquer sentido, apenas
sendo, diálogos confusos, permeados de justificativas sem consistência, mas num
emaranhado literário bem tecido de tal maneira que o personagem acaba por ser
envolvido e se dá como perdido. Um perdido sem retorno, um paralisado em
movimento, que dá voltas sobre o próprio ponto, mas caminha, mesmo sem encontrar
qualquer coisa que possa dar-lhe sentido.
É quase impossível mencionar, ou destacar, alguma passagem
literária, pois todo o texto, em trechos, parágrafos ou capítulos, constroem uma
imensidão de ausência de sentido e de redução do ser humano. Algumas passagens apontam
o estilo literário que seria denominado mais tarde de realismo mágico; os
escritórios e informações do sistema burocrático, criavam situação de
informação e desinformação; e Barnabás, que era tido como aquele capaz de ter
estado no castelo, se dava como um mensageiro, mas sempre havia escritórios por
detrás de escritórios, mistério, distanciamento e falta de sentido: “Além do
mais, lá no castelo sempre se é observado, ao menos esta é a crença que se tem.
E embora seguisse adiante de que lhe serviria sem ter ali nenhuma tarefa
oficial, não sendo, pois, nada mais que um intruso? Não deve você tampouco
supor que essas barreiras constituam um limite definido; este é outro ponto que
Barnabás repisa sempre com frequência em nossas conversas. Barreiras existem
também nos escritórios aos quais ele vai. Existem, pois, também barreiras que
ele atravessa, e não têm outro aspecto senão o daquelas pelas quais não passou
ainda; e por esta mesma razão tampouco se pode supor de antemão que detrás
destas últimas barreiras existam escritórios essencialmente diferentes daqueles
que Barnabás já conhece. Apenas, nessas hora sombrias exatamente, inclina-se
alguém a acreditá-lo assim. E depois a dúvida progride, nem sequer pode alguém
defender-se dela: Barnabás conversa com funcionários e estes lhe entregam
mensagens.” (p. 192).
Pouco adiante, sobre o Klamm, a dúvida de que, quem o vira,
se era ele mesmo, se o que vira, era o que vira; e ao fazer a leitura é quase
impossível não trazer à memória o General, de O Outono do Patriarca, de Gabriel
García Márquez. As expressões são quase literais: “Mas, não é porventura este o
fato? Pois bem será o fato, mas por que então duvida Barnabás de que o
funcionário a quem ali apontam dizendo que é Klamm seja realmente Klamm? – Olga
– disse K. -, não brinque; como podem existir dúvidas a respeito do aspecto de
Klamm? Todo o mundo sabe como ele é, eu mesmo já o vi. – Certamente, K. – disse
Olga -, eu não estou brincando; não se trata de brincadeiras, porém de minhas
preocupações mais graves. [...] Eu nunca vi Klamm – você já sabe que Frieda não
me quer muito e jamais teria me concedido isso-, mas, naturalmente, seus traços
são conhecidos no povoado; alguns o viram, todos ouviram falar dele e dessa mistura
de evidência, rumores e, ao mesmo tempo, de mais de uma intenção de tergiversar
as coisas, foi-se formando uma imagem de Klamm que, em seus traços principais,
deve ser exata. Mas tão somente nos traços principais.” (193/4)
Ao ser chamado para um interrogatório, K. se depara com um
sistema sem sentido, na dinâmica de um processo, com rupturas, e sessões
determinados pelo dia ou pela noite, sem comunicação ou memória de um em
relação ao outro: “De modo que tinha de aparecer depressa, submeter-se ao
interrogatório, e desaparecer o mais depressa possível ainda. Porventura não
sentiria, ali no corredor, a sensação de estar fazendo algo gravemente
indevido? Mas se a tivesse experimentado, como poderia permanecer ali, como uma
besta de pasto? Não o tinham convocado, porventura, a um interrogatório
noturno, e não sabia ele para que se tinham instituído os interrogatórios
noturnos? Os interrogatórios noturnos – e aí deram a K. uma nova explicação de
seu sentido – não tinham, pois, outro objetivo senão o de escutar durante a
noite, à luz artificial, as partes autoras cuja vista seria insuportável aos
senhores à luz do dia; assim tinham, além do mais, a possibilidade de esquecer,
dormindo, imediatamente depois do interrogatório, tudo o que é repugnante. Mas
a conduta de K. tinha burlado todas as medidas de precaução. Até os fantasmas
desapareciam com a chegada da manhã, mas K. havia ficado ali, com as mãos nos
bolsos, como se esperasse que, como não se afastava ele, se afastaria sem
dúvida todo o corredor, com todos os quartos e senhores.” (p. 295)
É isso. O texto é saboroso, enigmático, misterioso, mágico,
incompleto, inconcluso, repleto de personagens fortes, mas ao mesmo tempo, sem
qualquer sentido. Foi uma leitura divertida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário