sábado, 14 de dezembro de 2013

A HORA DA ESTRELA - Clarice Lispector





LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, 87p.

Curiosidade. Foi o que me levou a ler Clarice Lispector, a quem devia a leitura desde os tempos escolares. Fiz bem de não tê-la lido naquele tempo. O texto é rico demais e é necessária uma vivência, mais que a superação da alienação em Marx, para a compreensão, ou pelo menos aproximação, da riqueza que envolve a narrativa da vida de Macabéa, numa completa ausência de sentido, o que coloca o texto na trilha de Kafka. Uma ausência de sentido a partir do drama de uma mulher na cultura brasileira, latino-americana, explorada, nordestina, pobre, sozinha, marginal e ingenuamente (in) feliz.

“A Hora da Estrela” foi lançado em outubro de 1977 e seu descompasso histórico situa-se exatamente por conta da opressão política e ditadura pela qual o Brasil passava, e o debate social era quase que, necessariamente, o problema da opressão e dos oprimidos, da qual o capital e o trabalho faziam parte. É claro que o texto de Lispector não pode ser destacado de seu tempo, pois como produto cultural, sempre será possível articular alguma aproximação com estas temáticas. Porém, não se trata de seu assunto principal, e é exatamente por conta disso que a obra é atemporal, sob o risco de ter sido considerada, à época, inócua. Lispector trazia a notícia profética da presença e exclusão do nordestino nas metrópoles do sul do país. Com outras palavras, enquanto todo sistema, incluindo a mídia e mundo acadêmico, discutia o problema da ditadura, Lispector coloca a questão da exclusão, que não estava na esfera do poder, mas pertencia à cultura popular, entranhada nas relações do cotidiano e no imaginário infantil trazido pelo nordestino sonhador, e que era, ao mesmo tempo, profundamente rejeitado no sul.

No caso de Lispector, entretanto, o nordestino é mulher, anônima, analfabeta funcional, explorada por quem era explorado, ingênua na condição limite, e que apenas existe, só existe, puramente existe. Esta essencialidade, quase darwinista, pura como cultura e modo de ser nordestino, também será encontrada em Belchior, por exemplo. É quase a transformação do Dasein (ser-aí) do jovem Heidegger, em antropologia direta, isto é, a presença do puro dar-se-no-mundo a partir do nada, como se a pureza pudesse ser colocada face a face com a exclusão e não tivesse instrumentos sociais para dar conta de sua tragédia. E de fato não tinha. Os universos não se encontravam e só poderiam dialogar na condição de total alienação e submissão, quando então até o nem sonhar era impossível. O não fazer parte do mundo deve se, em Macabéa, compreendido, antes de tudo, como resistência e presença, profecia e superação.

Macabéa é uma personagem assim. Não conseguia sonhar porque não havia o que sonhar num mundo do qual jamais faria parte. A “Hora da Estrela” poderia ter tido outros nomes, sugeridos pela própria Lispector: “A Culpa é Minha ou A Hora da Estrela ou Ela que se Arranje ou O Direito do Grito/Quanto ao Futuro ou Lamento de um Blue ou Ela não sabe Gritar ou Assovio ao Vento Escuro ou Eu não posso fazer Nada ou Registro dos Fatos Antecedentes ou História Lacrimogênica de Cordel ou Saída Discreta pela porta dos Fundos”. Tudo isso está no texto e ele só pode ser compreendido a partir destes caminhos. O momento mais próximo do inútil universo acadêmico da metrópole que Macabéa teve foi aprender que Carlos Magno era chamado de Carolus. A pergunta que Lispector deixa suspensa é: a falta de sentido estaria, afinal, onde ou em quem?

Macabéa, nordestina, muda-se com a tia para o Rio de Janeiro. Após a morte desta, passa a residir sozinha. Péssima datilógrafa, conhece um metalúrgico nordestino, Olímpio, que, após uma aproximação, se encanta com a amiga de Macabéa, Glória. Por conta da tristeza, ela procura uma cartomante que lhe dá a previsão de um futuro brilhante e Macabéa morre ao sair da consulta. Na morte dá-se, finalmente, a hora da estrela. O enredo, simples, também sugere ausência de sentido, como um caminhar pelo cotidiano de uma mulher comum, nordestina e também sem destino. 

Contudo, o texto é saboroso, rico em sutilezas e permeado de vida. O fato de Macabéa ser datilógrafa, por exemplo, e ao mesmo tempo excluída, na ruim repetição da pura mecanização do significavam as palavras, colocam, tanto a personagem como o poeta narrador, na problematização da hermenêutica da autora, narrador poeta e personagens, entre a mão e pena. O imaginário religioso de Macabéa, outro recorte de leitura, é riquíssimo e diálogo com memória popular, o que sugere muitos caminhos.

Para aguçar o seu interesse, seguem alguns trechos.

Boa leitura.

“Dedicatória/(Na verdade Clarice Lispector)/Pois dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra e escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À “Morte e Transfiguração”, em que Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos – a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu.”

“Meditação não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela  mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me  atrapalha a vida é escrever: [...] o jeito é acreditar: acreditar chorando.”

“Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”

“Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas./Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa.”

“Ela que devia ter ficado no Sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário.”


“A pessoa de quem vou falar [Macabéa] é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua.”

“Sim, minha força está na solidão.”

“Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou [trata-se do personagem escritor, concebido por Clarice]. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.”

“E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muito acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.”

“Olhou-se [Macabéa] e levemente pensou: tão jovem e já com ferrugem.”

“A quem interrogava ela? A Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distração aparece Deus.”

“A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol.”

“Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.”

“Pois a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que Ela [Macabéa] não sabia qual era o botão de acender.”

“(...Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma figura bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim).”

“Eu me acostumo mas não amanso.”

“...já que sou, o jeito é ser.”

“Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia.”

[Macabéa] “E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.”

“Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação.”

“— Isso, moço, é indecência, disse ela para a rádio./ Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera. Como não sabia bem de quê, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava.”

“Às vezes só a mentira salva.”

“– E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?/– Macabéa./– Maca -— o quê?/– Béa, foi ela obrigada a completar./ – Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.”/

“Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:/– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?”

“Ela: – É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?”

“Ela disse:/– Eu vou ter tanta saudade de mim quando morrer.”

[Macabéa] “Adoro as artistas. Sabe que Marylin era toda cor-de-rosa?
– E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser
artista de cinema.”

“O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdoo.”

“Macabéa, enquanto Glória saía da sala — roubou escondido um biscoito. Depois pediu perdão ao Ser abstrato que dava e tirava. Sentiu-se, perdoada. O Ser a perdoava de tudo.”

“Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia vivificante.”

“No meu tempo a gente punha incenso queimando para dar um ar limpo na casa. Até tinha cheiro de igreja.”

“Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.”

“Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela logo já não é mais: passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.”

“Silêncio./ Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande./O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.”



domingo, 8 de dezembro de 2013

TRISTES TRÓPICOS - Claude Lévi-Strauss




LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. Prólogo de Manuel Delgado Ruiz. Barcelona: Paidós Ibéria, 1988, 468 pp.

Foi Belchior quem me levou a ler “Tristes Trópicos”, em razão de sua canção “Retórica Sentimental”, álbum “Medo de Avião”, 1979. Neste poema, concreto, ao que nominou de “Cláusula Terceira”, Belchior poetou: “E por falar em sabiá ... O poeta Gonçalves Dias é que sabia./ § único - Sabe lá se não queria/uma Europa bananeira!/(Diga lá, tristes trópicos, sabiá laranjeira!)”.

Primeiro pensei que poderia fazer uma leitura recortada pelo interesse. Depois verifiquei que precisaria ler um pouco mais, e assim, tomado pelo encanto, caminhei pelas 468 páginas, fascinado, e viajei com Lévi-Strauss pelo Brasil, em meados do século XX. Aos poucos, a primeira intuição foi a de que a obra seguiria os passos de “Facundo”, de Sarmiento, ou de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, o primeiro escrito quase sessenta anos antes que o segundo, e que emprestaria a este a estrutura literária. Contudo aos poucos, dizia eu, “Tristes Trópicos” tomou vida própria, de rara beleza, detalhe, poesia, profundidade e, é claro, muita humanidade.

Talvez seja mesmo por esta razão que o texto não apresenta uma pesquisa científica no rigor que alguns desejavam, de acordo com o modelo científico do século XIX (p. 103), mas é um caminhar pela natureza a observar tribos, deixando transparecer uma melancolia pela perda do puro, não apenas por ser puro, mas em face da pluralidade da riqueza que o antropólogo encontrara e que estaria sentenciada ao desaparecimento, morte e esquecimento (p. 467). Não colocaria Lévi-Strauss, é claro, em sua caminhada, como aquele que apenas e tristemente, estivesse lamentando perder o seu objeto de pesquisa, isto é, a ter a conservação da tribo à disposição perene, feito fotografia etnográfica disponível a qualquer momento. Para ele, o pensamento científico é como uma pedra de ponta afiada, cujo custo é perder parte do que seja pedra, e ainda assim sua eficácia irá depender de quão profundamente consiga penetrar como cortante (p. 125). Sua melancolia, se é que esta seja uma palavra adequada, longe de ser técnica, prendia-se ao que ocorrera há quatrocentos anos com a chegada de Colombo à América. Este teria sido o primeiro pecado: chegar e invadir. Logo em seguida viria o segundo, o ideário do colonizador que trouxera o drama da cultura imposta: Deus, a moral, e as leis (p. 76). Cada qual destes três elementos poderia oferecer mais que informações sobre a imposição cultural na formação das sociedades situadas entre os trópicos, incluindo as asiáticas. No caso de Deus, dá-se o debate religioso sobre o sagrado e seus dramas não resolvidos no mundo europeu, e que nitidamente, fora colocado como única fundamentação religiosa, além do que, exclusiva; a moral, a partir da ética cristã, fora imposta como comportamento obrigatório e único, sem as questões culturais fossem compreendidas e que envolviam, ou não, a permissão da homossexualidade tida como infantil entre os adolescentes em determinada tribo (p. 337), por exemplo; por fim a Lei, ou o Direito Positivo, que constituía o Estado como pessoa jurídica, a organizar a sociedade, e impor tanto as obrigações, como regular a liberdade. Nenhum ordenamento jurídico daria conta, nem mesmo em explicar o modo de formação social dos Bororos, por exemplo, e a divisão da aldeia circular em dois sistemas como que espelhados (fig. 43, p. 259). A conjugação destes três fatores sufocou a cultura nativa e a expropriou da notável ingenuidade infantil, ainda presente, à época, nas tribos do interior do Brasil.

A crítica declarada de Lévi-Strauss ao colonizador se fixa na incompreensão dos leitores das possíveis pesquisas etnográficas e que ficavam a analisá-las confortavelmente nos grandes centros europeus. Temas sobre a Amazônia, o Tibete e a África eram envolvidos em anedotas e situações de viagens (p.20), por exemplo, o que certamente mostrava o desprezo pelas culturas que não compreendiam. Deste modo Lévi-Strauss tenta mostrar a contribuição de tais selvagens na construção do que poderia ser considerado o marco do atual mundo europeu, a Revolução Francesa. Diz Lévi-Strauss: “Os relatos de ditos viajantes se encontram no começo da tomada de consciência etnográfica dos tempos modernos: por sua involuntária influência, a filosofia política e moral do Renascimento tomou o caminho que a conduziria à Revolução Francesa” (p. 374). Ou seja, do Renascimento à Revolução Francesa, a cultura indígena se fazia presente no que havia de melhor na Europa. A Europa retribuía o ocorrido com descaso, imposição, e principalmente, destruição cultural, quando deveria se quedar diante de sua superioridade (p. 439), já que a barbárie estava no mundo considerado civilizado (p. 442).

Assim, “Tristes Trópicos” é uma costura de aproximação social/antropológica a partir de várias construções, que passa do ideário europeu, pelo caminho de Calcutá, São Paulo para, ao fim, chegar às aldeias e à cultura selvagem do interior do Brasil. São Paulo já contava com a despersonalização, o que, possivelmente o aproximava, como Estado, do mundo europeu (p. 101). A experiência de empobrecimento da Índia, pelo efeito Calcutá e sua explosão demográfica (p. 138), ao que parece, poderia ser tomada como referência e de provável ocorrência quanto aos destinos do Novo Mundo, terra tão linda, de recursos naturais quase infindáveis. Na verdade, para Lévi-Strauss a Ásia é o futuro que nos espera (p.154). Daí a preocupação do autor em descrever toda a riqueza natural para então colocar nela o humano indígena e sua cultura criada no entorno de seus próprios valores, tema esse presente no texto como um todo.

Não é possível fazer uma caminhada por todas as trilhas que o texto sugere, mas digno de nota é o capítulo 28 (p. 319), quando Lévi-Strauss trata do problema da linguagem, presente não apenas na fala, mas na cultura, no corpo e nos desenhos simétricos entre os caduveos, por exemplo (figuras 24 e 25, p. 200), ou ainda na arte dos tupí-kawaíb (figura 52 p. 388 e 53 p. 389), outro exemplo. No capítulo 28, porém, o autor cuida da passagem da sociedade da voz para a da letra. Exemplo disso foi o que teria ocorrido entre os nambiquaras que, segundo Lévi-Strauss, o aprendizado da língua teve um efeito mais sociológico que intelectual, ao contrário do que se esperava (p. 322). Diferente do que se poderia pensar, a cultura da voz não retém o personagem histórico exclusivamente em sua época (p. 323), discurso esse que tem a finalidade apenas de valorizar a letra. Para Lévi-Strauss o ensino da comunicação escrita teve um objetivo funesto e desumano: “Se minha hipótese é exata, tem-se que admitir que a função primária da comunicação escrita é facilitar a escravidão. O emprego da escrita com uma finalidade desinteressada para obter a satisfação intelectual e estética é um resultado secundário, e mais ainda quando não se reduz a um meio de reforçar, justificar ou dissimular o outro” (p. 324). Deste modo, Lévi-Strauss questiona o ideário educacional como libertador social, e acrescenta: “Acendendo ao saber presente nas bibliotecas, os povos se fazem vulneráveis às mentiras que os documentos impressos propagam em proporção ainda maior” (p. 325).

Ao que parece o impacto e encontro com os nativos do interior transformou, primeiramente, o próprio Lévi-Strauss, diante da grandeza dos que poderiam ser chamados de selvagens (p. 372), quando descobriu que os males compreendidos como degenerescência de inferiores, tinham sido provocados, na verdade, pelo colonizador (p. 385). Em seu longo discurso existencial (principalmente páginas 430/1) e que merece ser lido na íntegra, Lévi-Strauss compara a sua redescoberta da vida, narrada nos “Tristes Trópicos” à contemplação da profundidade quando transitara de Debussy a Chopin: só mesmo a completa ausência de conceito no belo do clássico é capaz de se aproximar da experiência da redescoberta da grande orquestra cultural da beleza havida no mundo considerado selvagem. Tudo isso na tentativa de responder algumas perguntas básicas de seu trabalho: “O que tinha vindo fazer aqui? O que esperava? Com que finalidade? O que é exatamente uma investigação etnográfica? É o exercício normal de uma profissão como as demais, com a única diferença de que o escritório e o laboratório estão separados do domicílio por alguns milhares de quilômetros?” (p. 430). Foi um encontro com sociedades organizadas de maneira substancialmente diferente do que conhecera, além de sistemas religiosos singulares e de rara beleza.

Finalmente, diante de tudo isso, Lévi-Strauss registra um lamento permeado de ceticismo quanto ao futuro de culturas tão ricas, e que poderiam indicar o caminho na construção de uma nova sociedade. Ele reconhece que nem a psicologia, nem a metafísica, nem mesmo a arte, poderiam se dar como refúgio, ou até mesmo uma possível nova sociologia. Entre Descartes e Sartre, recupera o cogito, o ser e o nada: “Pourtant, j’ existe. [...]Le moi n’est pas seulement haïssable: il n’a pas de place entre un nous et un rien.”

O texto é riquíssimo. Uma obra de arte literária, transitando entre o poético, o êxtase da contemplação, a narrativa das memórias e o lamento pela condição humana, tanto dos excluídos quanto de quem os exclui. Vale a pena ser lido, palavra por palavra.

Boa leitura!

Natanael Gabriel da Silva

sábado, 30 de novembro de 2013

DO GROTESCO E DO SUBLIME - Victor Hugo




HUGO, Victor. Do Grotesco e do Sublime. Tradução do prefácio de Cromwell, tradução e notas de Célia Berrettini.  São Paulo: Perspectiva, 2007, 101p.

Saboroso texto, de leitura fácil, profunda e inovadora. Trata-se do prefácio da obra escrita por Victor Hugo, Cromwell, em 1827, mas que conquistou espaço independente, como texto, e aponta para a arte na modernidade. Na verdade foi além, mesmo sendo considerada como obra de referência da estética romântica, trata da conquista da arte e seu espaço, num mundo hoje pós-moderno, que flutua entre o sublime e o grotesco. É que, embora Hugo não mencione isso, o drama mediado pelo sublime e pelo grotesco, tem uma natureza profética e que, por conta disso, pode ser tido como atemporal.

Seguindo a tradição de encontrar na estética uma linguagem que extrapolava o sentido, não apenas como caricatura da realidade, e que já havia sido apontada por Schopenhauer em sua obra mais importante “O Mundo como Vontade e Representação”, Victor Hugo adiciona à legitimação do discurso estético o grotesco no sublime, e o sublime no grotesco, como dinâmicas de construção de uma nova linguagem, e se torna assim referência de leitura para a compreensão de Bakhtin, “Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais”, por exemplo. Num alcance anterior, a leitura de Decamerão, Boccaccio, ou da Divina Comédia, de Dante, ou ainda de Dom Quixote, de Cervantes, recebem uma coloração especial quando se compreende a questão do grotesco e do sublime, o que as torna, como obras, atemporais.

O grotesco e o sublime, em Victor Hugo, não são opostos que se excluem, mas acontecem juntos e dão a tônica superlativa que vai além da simples soma dos dois. Diz Victor Hugo: “Ora, como a poesia se sobrepõe sempre à sociedade, vamos tentar desvendar, segundo a forma desta, qual deve ter sido o caráter da outra, nestas grandes idades do mundo: nos tempos primitivos, nos tempos antigos, nos tempos modernos.” (p. 16). E a estas idades do mundo, a arte se dá como expressão de modo próprio: “Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos, os tempos modernos são dramáticos. A ode canta a eternidade, a epopeia soleniza a história, o drama pinta a vida. O caráter da primeira poesia é a ingenuidade, o caráter da segunda é a simplicidade, o caráter da terceira, a verdade.” (p. 40)

Sua visão da “antropologia” poética transita do colossal à humanidade. Nos tempos primitivos, as personagens são colossais, como Adão, Caim, Noé. Na epopeia são gigantes, como Aquiles, Atreu e Orestes. Nos tempos modernos são homens, como Hamlet, Macbeth e Otelo. (p.41) Nas três idades, primeiro a sociedade canta o sonho, depois narra o que faz e finalmente, nos tempos modernos, pinta o que pensa. (p.42)

Pouco adiante, Hugo diz que no dia quando o cristianismo deu ao ser humano a condição de duplicidade, entre o perecível e a imortalidade, criou-se o drama. E completa: “A poesia nascida do cristianismo, a poesia de nosso tempo é, pois, o drama; o caráter do drama é o real; o real resulta da combinação bem natural de dois tipos, o sublime e o grotesco, que se cruzam no drama, como se cruzam na vida e na criação”. (p. 46). No grotesco, a fera humana, no sublime, a alma. (p.47). “É, pois, o grotesco uma das supremas belezas do drama. Não é só uma conveniência sua; é frequentemente uma necessidade” (p. 50).

Então, para Hugo, a arte não é uma caricatura do real, mas a sua liberação, projeção e questionamento. É a ampliação do real e da objetividade, possui um conteúdo próprio pois estabelece o ponto de ruptura entre o possível e o imaginável. “A arte não conta com a mediocridade. Não lhe prescreve nada; não a conhece; a mediocridade não existe para ela. A arte dá asas e não muletas.” (p. 63). Por conta disso, as teorias que aprisionam a arte, que determinam o que é ou não poesia, servem apenas como um engessamento ou tapumes. Mascaram a fachada da arte. (p. 64). “Assim, a finalidade da arte é quase divina: ressuscitar, se trata da história; criar, se trata da poesia.” (p.69)

O drama, nos tempos modernos, onde o humano se dá como pintura, e também no qual o grotesco e o sublime, fera e alma, se encontram, é assim definido por Hugo: “Se tivéssemos o direito de dizer qual poderia ser, em nosso gosto, o estilo do drama, quereríamos um verso livre, franco, leal, que ousasse tudo dizer sem hipocrisia, tudo exprimir sem rebuscamento e passasse com um movimento natural da comédia à tragédia, do sublime ao grotesco; alternadamente positivo e poético, ao mesmo tempo artístico e inspirado, profundo e repentino, amplo e verdadeiro; que soubesse quebrar a propósito e deslocar a cesura para disfarçar sua monotonia de alexandrino; mais amigo do enjambement que o alonga que da inversão que o embaraça; fiel à rima, esta escrava da rainha”. (p. 77).

O texto é genial e merece ser lido por inteiro, caso o leitor assim tenha o desejo. Pode ser encontrado em PDF.

Boa leitura!

Natanael Gabriel da Silva