LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de
Janeiro: Rocco, 1998, 87p.
Curiosidade. Foi o que me levou a ler Clarice
Lispector, a quem devia a leitura desde os tempos escolares. Fiz bem de não
tê-la lido naquele tempo. O texto é rico demais e é necessária uma vivência,
mais que a superação da alienação em Marx, para a compreensão, ou pelo menos
aproximação, da riqueza que envolve a narrativa da vida de Macabéa, numa
completa ausência de sentido, o que coloca o texto na trilha de Kafka. Uma
ausência de sentido a partir do drama de uma mulher na cultura brasileira,
latino-americana, explorada, nordestina, pobre, sozinha, marginal e
ingenuamente (in) feliz.
“A Hora da Estrela” foi lançado em outubro de 1977
e seu descompasso histórico situa-se exatamente por conta da opressão política
e ditadura pela qual o Brasil passava, e o debate social era quase que,
necessariamente, o problema da opressão e dos oprimidos, da qual o capital e o
trabalho faziam parte. É claro que o texto de Lispector não pode ser destacado
de seu tempo, pois como produto cultural, sempre será possível articular alguma
aproximação com estas temáticas. Porém, não se trata de seu assunto principal,
e é exatamente por conta disso que a obra é atemporal, sob o risco de ter sido
considerada, à época, inócua. Lispector trazia a notícia profética da presença
e exclusão do nordestino nas metrópoles do sul do país. Com outras palavras,
enquanto todo sistema, incluindo a mídia e mundo acadêmico, discutia o problema
da ditadura, Lispector coloca a questão da exclusão, que não estava na esfera
do poder, mas pertencia à cultura popular, entranhada nas relações do cotidiano
e no imaginário infantil trazido pelo nordestino sonhador, e que era, ao mesmo
tempo, profundamente rejeitado no sul.
No caso de Lispector, entretanto, o nordestino é
mulher, anônima, analfabeta funcional, explorada por quem era explorado,
ingênua na condição limite, e que apenas existe, só existe, puramente existe.
Esta essencialidade, quase darwinista, pura como cultura e modo de ser
nordestino, também será encontrada em Belchior, por exemplo. É quase a
transformação do Dasein (ser-aí) do
jovem Heidegger, em antropologia direta, isto é, a presença do puro
dar-se-no-mundo a partir do nada, como se a pureza pudesse ser colocada face a
face com a exclusão e não tivesse instrumentos sociais para dar conta de sua
tragédia. E de fato não tinha. Os universos não se encontravam e só poderiam
dialogar na condição de total alienação e submissão, quando então até o nem
sonhar era impossível. O não fazer parte do mundo deve se, em Macabéa,
compreendido, antes de tudo, como resistência e presença, profecia e superação.
Macabéa é uma personagem assim. Não conseguia
sonhar porque não havia o que sonhar num mundo do qual jamais faria parte. A
“Hora da Estrela” poderia ter tido outros nomes, sugeridos pela própria Lispector:
“A Culpa é Minha ou A Hora da Estrela ou Ela que se Arranje ou O Direito do
Grito/Quanto ao Futuro ou Lamento de um Blue ou Ela não sabe Gritar ou Assovio
ao Vento Escuro ou Eu não posso fazer Nada ou Registro dos Fatos Antecedentes
ou História Lacrimogênica de Cordel ou Saída Discreta pela porta dos Fundos”.
Tudo isso está no texto e ele só pode ser compreendido a partir destes
caminhos. O momento mais próximo do inútil universo acadêmico da metrópole que Macabéa
teve foi aprender que Carlos Magno era chamado de Carolus. A pergunta que
Lispector deixa suspensa é: a falta de sentido estaria, afinal, onde ou em
quem?
Macabéa, nordestina, muda-se com a tia para o Rio
de Janeiro. Após a morte desta, passa a residir sozinha. Péssima datilógrafa, conhece
um metalúrgico nordestino, Olímpio, que, após uma aproximação, se encanta com a
amiga de Macabéa, Glória. Por conta da tristeza, ela procura uma cartomante que
lhe dá a previsão de um futuro brilhante e Macabéa morre ao sair da consulta.
Na morte dá-se, finalmente, a hora da estrela. O enredo, simples, também sugere
ausência de sentido, como um caminhar pelo cotidiano de uma mulher comum,
nordestina e também sem destino.
Contudo, o texto é saboroso, rico em sutilezas e
permeado de vida. O fato de Macabéa ser datilógrafa, por exemplo, e ao mesmo
tempo excluída, na ruim repetição da pura mecanização do significavam as
palavras, colocam, tanto a personagem como o poeta narrador, na problematização
da hermenêutica da autora, narrador poeta e personagens, entre a mão e pena. O
imaginário religioso de Macabéa, outro recorte de leitura, é riquíssimo e
diálogo com memória popular, o que sugere muitos caminhos.
Para aguçar o seu interesse, seguem alguns trechos.
Boa leitura.
“Dedicatória/(Na verdade Clarice Lispector)/Pois dedico esta coisa aí ao
antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós. Dedico-me à cor
rubra e escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto
dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e
ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza,
quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me
à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que
me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À
“Morte e Transfiguração”, em que Richard Strauss me revela um destino?
Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de
Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos
dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos – a todos esses que em mim
atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente
e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir
em: eu.”
“Meditação não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim
apenas ela mesma. Eu medito sem palavras
e sobre o nada. O que me atrapalha a
vida é escrever: [...] o jeito é acreditar: acreditar chorando.”
“Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”
“Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher
pode lacrimejar piegas./Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por
cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa.”
“Ela que devia ter ficado no Sertão de Alagoas com vestido de chita e
sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano
primário.”
“A pessoa de quem vou falar [Macabéa] é tão tola que às vezes sorri para
os outros na rua.”
“Sim, minha força está na solidão.”
“Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou [trata-se do
personagem escritor, concebido por Clarice]. A classe alta me tem como um
monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a
classe baixa nunca vem a mim.”
“E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muito acham: que
existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é
lógico.”
“Olhou-se [Macabéa] e levemente pensou: tão jovem e já com ferrugem.”
“A quem interrogava ela? A Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não
pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distração aparece Deus.”
“A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há
desejo de sol.”
“Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é
o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos
sibilantes.”
“Pois a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que Ela [Macabéa]
não sabia qual era o botão de acender.”
“(...Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma
figura bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era
capim).”
“Eu me acostumo mas não amanso.”
“...já que sou, o jeito é ser.”
“Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não
existia.”
[Macabéa] “E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era.
Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de
coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando
com obediência o papel de ser.”
“Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele
chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação.”
“— Isso, moço, é indecência, disse ela para a rádio./ Outra vez ouvira:
“Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera.
Como não sabia bem de quê, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava
que vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava.”
“Às vezes só a mentira salva.”
“– E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?/– Macabéa./– Maca -— o
quê?/– Béa, foi ela obrigada a completar./ – Me desculpe mas até parece doença,
doença de pele.”/
“Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse
ao recém-namorado:/– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?”
“Ela: – É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu
faço para conseguir ser possível?”
“Ela disse:/– Eu vou ter tanta saudade de mim quando morrer.”
[Macabéa] “Adoro as artistas. Sabe que Marylin era toda cor-de-rosa?
– E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser
artista de cinema.”
“O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdoo.”
“Macabéa, enquanto Glória saía da sala — roubou escondido um biscoito.
Depois pediu perdão ao Ser abstrato que dava e tirava. Sentiu-se, perdoada. O
Ser a perdoava de tudo.”
“Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia
vivificante.”
“No meu tempo a gente punha incenso queimando para dar um ar limpo na
casa. Até tinha cheiro de igreja.”
“Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a
ressurreição.”
“Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela
logo já não é mais: passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.”
“Silêncio./ Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande./O
silêncio é tal que nem o pensamento pensa.”