quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O CASTELO - Franz Kafka



Franz KAFKA. O Castelo. São Paulo: Martim Claret, 2007, 339p.

por Natanael Gabriel da Silva

Já faz tempo que não posto um texto. Neste período fiz muitas leituras, mas o fascínio por Kafka quase se impôs. Dentre os livros que li está O Castelo. Eu sei que Kafka não é pra ser lido, mas degustado. Foi o que fiz.

Outra aventura minha é postar alguma coisa de Kafka. É quase um suicídio literário. Algo que, para seguir a direção do próprio Kafka, não tem sentido. Mas vamos lá.

Kafka foi um judeu-tcheco (1883-1924). Com exceção de algumas cartas, escreveu em alemão. O Castelo, dentre outras obras, seria publicado postumamente, dois anos depois de sua morte. Kafka pertence ao período da pergunta pela profundidade humana, no caminho do romantismo alemão, e fez parte da cultura que dialogava com a filosofia da vida e existencial, ao lado de Nietzsche, Freud, Wagner, e até mesmo de Martin Heidegger. Este, em 1927, conhecido no pensamento como o jovem Heidegger, tentaria dar um sentido ao ser pelo caminho da sistematização do fenômeno da existência, em Sein und Zeit, ao entender que o sentido do ser é um sendo para a morte, e esta é também dada como não tendo sentido. Já Nietzsche vira a busca do sentido na superação da metafísica. Sua crítica à filosofia clássica, estilhaçada a golpes de martelo, é conhecida. Isto é, para Nietzsche não havia sentido, nem rumo no discurso aristotélico-tomista, do qual a teologia cristã se dava diretamente como herdeira. A lógica deveria ser vencida pela arte, mais precisamente pela tragédia, e, ao resgatar a profundidade perdida, o ser humano poderia se reencontrar na vida como um ser além de si mesmo (übermensch), impropriamente traduzido por “super-homem”: uma potencialização da vontade tomada de Schopenhauer. Para Freud o sentido da vida passava pelo desvelamento dos mitos havidos no inconsciente. Kafka, contudo, entendeu que a falta de sentido na vida era absoluta. Para ele não havia saída pra a existência, nem outra construção possível, nem vontade ou profundidade a ser analisada e resolvida, senão a redução do ser humano à condição de um inseto, e ainda a diminuição de sua identidade, simbolicamente identificado pela primeira letra do próprio nome, simplesmente K.

Eu tinha um amigo, ex-professor da Unicamp, apaixonado por Nietzsche e Bach, que me dizia assim: - A simplicidade me confunde. Falava e ria solto. Pois é, isso se aplica a Kafka. Seus textos são de um enredo simples e facilmente podem ser reduzidos a poucas frases, mas o que dá brilho à sua literatura é a falta de sentido. Esta falta de sentido não está presente apenas nos personagens, ou na história, mas faz parte da estrutura literária. Kafka constrói longos discursos que não fazem qualquer sentido, apesar de possuírem lógica. Não se tratam de elaborações desconexas, contraditórias, ou imperfeitas. Nada disso. São fascinantes como leitura, cativantes como expressões, mas simplesmente, sem sentido. A leitura vai forçando a expectativa de um sentido futuro que nunca chega. É como um discurso cristão sobre o céu e eternidade. É como ser arrastado para o futuro, e lá alguma possibilidade de resposta, mas o futuro nunca chega, e a resposta migra para as páginas seguintes, e sequer desaparece com o encerramento do texto. Ao terminar a leitura, fica ressoando a voz da busca de sentido como se fosse profética e que num dado momento até parece que será encontrada. Nem mesmo a ausência de sentido poderia ser compreendida como sendo e tendo, pelo menos, sentido. Nisto reside boa parte da genialidade de Kafka: ele consegue superar a falta de sentido que poderia se transformar no sentido do que não possui sentido, num enforcamento silogístico. A falta de sentido permanece, apesar do fim do texto, e continua na vida, porque a vida, para Kafka, não tem sentido. E o ser humano, sem sentido, na vida sem sentido, só pode se apresentar reduzido à singularidade de uma letra.

É claro que não faltaram, e não faltam, observações de projeção da pessoalidade do próprio Kafka em seus escritos. A análise de sua vida e possíveis dramas e traumas são, constantemente, alvo de reflexão e interesse para se tentar encontrar algum sentido na própria vida de Kafka, o que o colocaria em contradição. Mas os resultados se transformam em outras obras e desdobramentos kafkianos, pois terminam também na ausência de sentido e como sempre levantam mais perguntas que respostas.

O Castelo é um não-lugar, protegido por um nada, já que nenhuma trilha ou estrada parecia caminhar para ele. O castelo é um mistério representado por repartições, secretários e o enigmático Klamm, com quem K. jamais conseguia contato, sempre próximo e ao mesmo tempo longe, um perto distante que nunca é conquistado. Vez por outra aparece algum personagem que diz ter estado com Klamm, mas as formas de aproximação, os caminhos do encontro e as costuras de relacionamento capazes de aproximar um de outro, jamais acontecem. K., que se dizia contratado para ser agrimensor do castelo, não consegue assumir a função, nem chegar ao castelo, nem a estar com autoridades que poderiam lhe dar algum sentido. Ele vai ter oportunidade de observar o castelo, pensar e imaginar como este seria, mas sua vida vai se deslocando de uma escola, onde acaba por trabalhar como bedel, à taberna e ao vilarejo. K. se casa, mas não se casa, tem ajudantes, mas não tem, conversa com superiores que não são superiores, subalternos do castelo, que não são subalternos, se desloca por escritórios cujas portas parecem não ter fim, localizados em espaços que parecem sem sentido. Há em tudo a linguagem do exagero, do enigmático, de uma ausência de sentido que não permite nem mesmo alguma pergunta.

Há sim uma burocracia em O Castelo, assim como em O Processo, mas sem sentido, é claro. Também esta temática, a burocracia política, faz parte de seu tempo. Um tempo conturbado, diga-se de passagem. Kafka, sem dúvida, é herdeiro da tragédia napoleônica, e faleceu depois da Primeira Grande Guerra; viu a transformação política do Estado Alemão, como também a Revolução Russa. Modelos de Estado e experimentos em políticas socioeconômicas fizeram parte de seu tempo. Para Kafka tudo desembocava na completa e absoluta falta de sentido. O Castelo não representa um céu, como parece preconizar, pois nele não se realizam sonhos. É um vazio de sentido. O castelo ficava apenas lá, não tinha necessariamente conteúdo, mas se dava de maneira imponente e destituído de um algo, cuja possibilidade de nele adentrar era movida apenas pela homologação da atividade de K. como agrimensor. Um emaranhado que não representava nada, e que poderia ser aproximado ao mito religioso, mas apenas como referência, nunca como paraíso. Um inacessível que não fazia diferença, serpenteado por estradas que não lhe davam caminho, escondido pelas noites e envolvido nas sombras da indefinição.

A falta de sentido em Kafka é sistêmica. Faz parte de tudo. Está nos diálogos, nas expectativas, na madorna e cadência literária cheia de detalhes de nada, e as imagens vão sendo formadas sem qualquer sentido, apenas sendo, diálogos confusos, permeados de justificativas sem consistência, mas num emaranhado literário bem tecido de tal maneira que o personagem acaba por ser envolvido e se dá como perdido. Um perdido sem retorno, um paralisado em movimento, que dá voltas sobre o próprio ponto, mas caminha, mesmo sem encontrar qualquer coisa que possa dar-lhe sentido.

É quase impossível mencionar, ou destacar, alguma passagem literária, pois todo o texto, em trechos, parágrafos ou capítulos, constroem uma imensidão de ausência de sentido e de redução do ser humano. Algumas passagens apontam o estilo literário que seria denominado mais tarde de realismo mágico; os escritórios e informações do sistema burocrático, criavam situação de informação e desinformação; e Barnabás, que era tido como aquele capaz de ter estado no castelo, se dava como um mensageiro, mas sempre havia escritórios por detrás de escritórios, mistério, distanciamento e falta de sentido: “Além do mais, lá no castelo sempre se é observado, ao menos esta é a crença que se tem. E embora seguisse adiante de que lhe serviria sem ter ali nenhuma tarefa oficial, não sendo, pois, nada mais que um intruso? Não deve você tampouco supor que essas barreiras constituam um limite definido; este é outro ponto que Barnabás repisa sempre com frequência em nossas conversas. Barreiras existem também nos escritórios aos quais ele vai. Existem, pois, também barreiras que ele atravessa, e não têm outro aspecto senão o daquelas pelas quais não passou ainda; e por esta mesma razão tampouco se pode supor de antemão que detrás destas últimas barreiras existam escritórios essencialmente diferentes daqueles que Barnabás já conhece. Apenas, nessas hora sombrias exatamente, inclina-se alguém a acreditá-lo assim. E depois a dúvida progride, nem sequer pode alguém defender-se dela: Barnabás conversa com funcionários e estes lhe entregam mensagens.” (p. 192).

Pouco adiante, sobre o Klamm, a dúvida de que, quem o vira, se era ele mesmo, se o que vira, era o que vira; e ao fazer a leitura é quase impossível não trazer à memória o General, de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez. As expressões são quase literais: “Mas, não é porventura este o fato? Pois bem será o fato, mas por que então duvida Barnabás de que o funcionário a quem ali apontam dizendo que é Klamm seja realmente Klamm? – Olga – disse K. -, não brinque; como podem existir dúvidas a respeito do aspecto de Klamm? Todo o mundo sabe como ele é, eu mesmo já o vi. – Certamente, K. – disse Olga -, eu não estou brincando; não se trata de brincadeiras, porém de minhas preocupações mais graves. [...] Eu nunca vi Klamm – você já sabe que Frieda não me quer muito e jamais teria me concedido isso-, mas, naturalmente, seus traços são conhecidos no povoado; alguns o viram, todos ouviram falar dele e dessa mistura de evidência, rumores e, ao mesmo tempo, de mais de uma intenção de tergiversar as coisas, foi-se formando uma imagem de Klamm que, em seus traços principais, deve ser exata. Mas tão somente nos traços principais.” (193/4)

Ao ser chamado para um interrogatório, K. se depara com um sistema sem sentido, na dinâmica de um processo, com rupturas, e sessões determinados pelo dia ou pela noite, sem comunicação ou memória de um em relação ao outro: “De modo que tinha de aparecer depressa, submeter-se ao interrogatório, e desaparecer o mais depressa possível ainda. Porventura não sentiria, ali no corredor, a sensação de estar fazendo algo gravemente indevido? Mas se a tivesse experimentado, como poderia permanecer ali, como uma besta de pasto? Não o tinham convocado, porventura, a um interrogatório noturno, e não sabia ele para que se tinham instituído os interrogatórios noturnos? Os interrogatórios noturnos – e aí deram a K. uma nova explicação de seu sentido – não tinham, pois, outro objetivo senão o de escutar durante a noite, à luz artificial, as partes autoras cuja vista seria insuportável aos senhores à luz do dia; assim tinham, além do mais, a possibilidade de esquecer, dormindo, imediatamente depois do interrogatório, tudo o que é repugnante. Mas a conduta de K. tinha burlado todas as medidas de precaução. Até os fantasmas desapareciam com a chegada da manhã, mas K. havia ficado ali, com as mãos nos bolsos, como se esperasse que, como não se afastava ele, se afastaria sem dúvida todo o corredor, com todos os quartos e senhores.” (p. 295)

É isso. O texto é saboroso, enigmático, misterioso, mágico, incompleto, inconcluso, repleto de personagens fortes, mas ao mesmo tempo, sem qualquer sentido. Foi uma leitura divertida.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A FÉ DO POVO - Orlando O. Espin

Orlando O. ESPIN, A Fé do Povo. São Paulo: Paulinas, 2000, 320p.

por Natanael Gabriel da Silva


ESPIN faz parte de uma elite intelectual-libertária, herdeira do pensamento de Karl Rahner (1904-1984). Rahner havia colocado o ser humano, a partir de um longo discurso existencial, como aquele que é o portador da pergunta pelo Mistério Absoluto, ou seja, Deus se encontra na existência (vida), primeiramente, não nos dogmas, como também não apenas na hierarquia da Igreja. Com outras palavras, a vida é o lugar da presença do divino. Isso parece simples, mas tanto a teologia católica como a protestante, fizeram e fazem, a migração rápida da vida para as estruturas sacramentais, litúrgicas, dogmáticas ou sistemáticas. No caso do protestantismo, a Teologia Sistemática, que difere da Dogmática por ter surgido a partir da livre interpretação das Escrituras feitas nas comunidades de fé, num primeiro momento pode até se dar como expressão de uma realidade teológico-cultural a partir do cotidiano, mas, com o passar do tempo, acaba se solidificando. Ao se solidificar passa a ser, não mais um emaranhado de enunciados que interpretam o sagrado, mas instrumentos do poder clerical e da burocracia eclesiástica para segregar, excluir e impor suas ideologias. Por conta disso, as comunidades históricas (presbiterianos, batistas, metodistas, por exemplo) ainda são regidas por declarações centenárias, mesmo que renovadas por meio de inúmeras atualizações. Isto é, ainda discutem temas como “credibilidade das Escrituras”, como se a Reforma Protestante tivesse acontecido ontem; ou debatem sobre a questão do gênero, numa sociedade cada vez mais plural e livre; ou ainda filigranas que dão a esta ou àquela comunidade a certidão histórica de uma igreja primitiva, neotestamentária. Tudo isso enquanto a vida acontece e as grandes perguntas continuam ainda sem resposta. Perguntas estas sobre humanização, da solidariedade, da inclusão (até mesmo da própria religião), da justiça social, e por aí se vai, só para mencionar alguns temas que, apesar do esforço, acabam se transformando mais em bandeira de Congressos, e se perdem como ação e política de transformação.

Pois bem, ESPIN é um pastor católico, e o parágrafo acima, que não faz parte de seu texto, teve por objetivo situar o leitor que, não sendo ou não católico, certamente se identificará com a sua proposta e preocupações. A percepção de ESPIN sobre o oprimido vem por conta de sua estada na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana, onde conviveu com a miséria em seu estado absoluto. Seu pensamento central sobre o excluído não é, necessariamente, uma questão social. Vai além. Trata-se do desprezo que a elite religiosa tem, e teve, para com o imaginário religioso dos marginalizados. Isto é, os oprimidos não são apenas aqueles que suportam uma segregação econômica, mas também, e principalmente, foram banidos com suas crenças por meio de uma segregação religiosa. Para ele, a religião é onde a vida acontece e a Revelação de Deus é um ato para a vida, não para as declarações de fé, dogmáticas ou sistemáticas. Deus é uma presença na vida, e nela acontece a sua perfeita Revelação.

Para um católico, isso é demais. Um protestante já seria chamado de liberal, uma palavra pouco conhecida, mas que virou jargão de teologia inconsistente e ameaçadora em razão de sua ética inclusiva. A voz profética de ESPIN, por meio de vários artigos que deram origem ao texto A Fé do Povo, é deliciosa de ser lida. Humana, com ensaios históricos de profundidade, e uma análise de como a fé cristã, católica (e certamente protestante também), acabou sendo recebida, incorporada e aculturada no espaço popular da América Latina.

O texto é longo e rico. Só para aguçar o interesse do leitor, quero considerar apenas o primeiro capítulo, O Deus dos Derrotados, que foi um artigo publicado anteriormente em Listening: Journal of Religion and Culture, 27.1.1992. pp. 70-83.

Na introdução, do livro como um todo, ESPIN já havia apontado que, quando chegara às cidades de Dajabón e Loma de Cabrera, sua primeira percepção foi a de que precisaria ensinar, ou catequizar, de maneira mais precisa os fiéis, uma vez que os evangelizados se davam mais à devoção dos santos e rituais do que a Cristo e o evangelho (p. 27). Contudo, logo compreendeu que “O catolicismo do povo como lócus theologicus não pode ser menosprezado”, (p.29) e esse lugar é a fé do povo, onde a fé acontece. Sua preocupação com a inclusão vai além das oportunidades sociais que poderiam ser dadas (p. 32), porque estas são apenas formas de dissimulação. Será preciso ouvir a fé do povo.

Ao considerar o capítulo que estamos estudando, O Deus dos Derrotados, seu ponto de partida é a identificação de Jesus de Nazaré, que foi também pobre e perseguido, com a construção social e marginal dos oprimidos da América Latina. Ele diz: “ – a experiência de Jesus de Nazaré – revela quem/o que/ como Deus realmente é, então a humanidade dessa vida é, legitimamente, a analogia da existência de Deus” (p. 45). A principal condição do que chamamos de Revelação é a própria vida (p. 46) e os dogmas cristãos não podem precedê-la (p. 47). Ao contrário do Deus empreendedor e acumulador de riquezas, como tem sido preconizado comercialmente pelas empresas neopentecostais atualmente, o Jesus de Nazaré é a figura explícita de um Deus derrotado, o que o torna próximo e possível de ser compreendido pelos oprimidos da América Latina (p.54). A analogia Deus-Jesus-pobre, pode ser lida assim: “Se Jesus é a analogia pela qual percebemos definitivamente quem/o que/como Deus é, parece-me que, então entendemos o próximo derrotado como a analogia contínua de Jesus” (p. 57 - sic).

Nesse ponto ESPIN entende que a questão do Jesus sofredor não é apenas compreensão sobre os enunciados formais da fé, quando se pensa em seus resultados e declinações dogmáticas ou doutrinárias, mas é a própria hermenêutica da vida. Ou seja, o diálogo histórico de apropriação do discurso religioso pelos pobres da América Latina passou pelo canal do sofrimento. Isso se deu quando os pobres identificaram que, entre Jesus e eles, a vida havia sido escrita de maneira muito próxima. Nesta identificação, o evangelho foi recebido e depois parcialmente interpretado (parcialmente pela ótica da religião oficial, evidentemente). Diz ESPIN: “A proclamação do evangelho cristão só foi possível porque os evangelizados foram primeiro conquistados, perderam suas terras e sua liberdade e tiveram suas culturas invadidas” (p. 63 – sic). Ou seja, ao gerar a miséria da conquista, criou-se a ponte hermenêutica de comunicação para que o evangelho pudesse fazer sentido. Só que um fazer sentido sem a dimensão canônica dos pronunciamentos oficiais sobre as regras de fé, conceitos, etc. O que ocorrera, de plano, fora a adaptação do catolicismo formal/institucional (e certamente também do protestantismo) às crenças populares do imaginário religioso destas comunidades. Com isso dá-se o que ESPIN chama de “catolicismo popular”.

Contudo, se a conquista da América Latina se deu por meio de morte, escravidão e expropriação, e ao mesmo tempo trouxe a religião do opressor, como então explicar o fato dos dominados terem optado pela religião do dominador? A resposta de ESPIN que parece fazer muito sentido para o nosso tempo, com a invasão da religião do sucesso e do progresso, vinda principalmente do sistema estadunidense e por meio de cópias nacionais, onde está presente a exploração do mercado religioso e a mercantilização da fé, a resposta de ESPIN, dizia eu, é sem dúvida interessante. Ele coloca que, nas guerras entre deuses, modo pelo qual os nativos certamente fizeram a leitura da chegada do europeu, os sobreviventes sempre ficavam do lado do deus mais forte. O Deus mais forte e vencedor merecia ser honrado, adaptado à cultura e crenças; foi assim, incorporado. Quadro que ESPIN resume assim: “Como vimos, os latinos dos EUA carregam a marca da vítima involuntária. Os euro-americanos trazem o sinal do vencedor. Entre os cristãos, os primeiros projetam em Jesus seu sofrimento e os segundos projetam seu sucesso. Os latinos concentram-se na cruz, enquanto os euro-americanos enfatizam a ressurreição. Os dois grupos proclamam crer tanto na cruz como na ressurreição e, contudo, suas projeções simbólicas expressam suas diferentes experiências de vida fundamentais” (p. 65).

Por fim, conclui o artigo: “Portanto, o cristão deve, em primeiro lugar, ter o compromisso de ser solidário com as vítimas sofredoras. E esse compromisso precisa ser posto em ação em todos os aspectos da vida cotidiana, particulares e públicos” (p. 72).

Infelizmente o texto A Fé do Povo está esgotado. Se pesquisar, poderá encontrá-lo em algum sebo. A estante virtual poderia ser um bom começo. Compartilho as minhas leituras apenas do primeiro artigo. Os demais são: “2. O monoteísmo trinitário e a origem do catolicismo popular – O caso do México no século XVI; 3. A tradição e a religião popular – Entendimento do Sensus Fidelium; 4. Catolicismo popular Alienação ou esperança?; 5. Catolicismo popular entre os latinos; 6. A religião popular como epistemologia (do sofrimento); 7. Iroko e Ará-Kolé: comentário exegético a um mito iorubá-licumí.)

Fique com o gostinho. Vale a pena conferir.
Boa leitura.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

OS MISERÁVEIS - Victor Hugo


HUGO, Victor. Os Miseráveis. Volumes 1 e 2. São Paulo: Martim Claret, 2007.
por Natanael Gabriel da Silva

Não li o texto por conta do filme, era parte de um projeto antigo. O filme, “Os Miseráveis” (2012), musical, é magnífico.  Contudo, Victor Hugo não teria concordado em transformar a miséria em teatro, numa sociedade que ainda convive com a desumanidade e a exclusão. Este inconformismo aparece no texto, com a crítica que faz a Goethe, seu (quase) contemporâneo. Isso porque no filme, a beleza da arte acaba por esconder a miséria, o que no texto aparece de maneira incomum, até por conta do título. A miséria, no texto de Hugo, sob uma azeda redundância, é miserável.

Uma obra rica e difícil de ser comentada. Uma obra-prima é uma obra-prima, e o que vem depois dela é caricatura. Sem dúvida, foi prazeroso vencer as 1.407 páginas dos dois volumes somados e acompanhar a rede de miséria da França do século XIX. Um texto rico de personagens miseráveis, a começar por Jean Valjean, que passaria a vida, primeiramente preso, depois perseguido incansavelmente por Javert e tudo por conta do furto de um pão. Miserável também seria Javert, representante do poder que ele não compreendia. Também não sabia nada do humano. Javert,  o mandado, o fiel,  sempre afeto à obediência de normas e regras que nem mesmo ele sabia direito o que significavam. É a longa mão do poder numa sociedade em que o próprio poder não aparece, senão para oprimir e matar. Um sistema sem sentido, todo o sistema, por inteiro, que havia sepultado de maneira tão rápida os ideais da Revolução Francesa. Javert nascera numa prisão, filho de uma cartomante, cujo marido estava nas galés. Esta é a metáfora do nascimento e origem do poder, há que ser formado por mágicos e bandidos. Fora assim, miserável desde o nascimento. Fantini seria outra miserável. Mãe de Cosette, privada da razão de sua vida, a filha, e ainda morreria explorada e doente para, por fim, ser sepultada “... no canto gratuito do cemitério, que pertence a todos e a ninguém, e onde os pobres se perdem para sempre. Felizmente, Deus sabe onde encontrar as almas.” (Vol I, p. 299). Os Thénardiers, outros miseráveis, que explorariam os explorados e seriam senhores miseráveis de outros miseráveis; corruptos, pequenos proprietários, que dariam rosto à síndrome do pequeno poder e representariam, ao mesmo tempo, dominadores e dominados, exploradores e explorados. Tudo isso colocado sob o exagero e exploração de uma criança, e uma criança mulher, feminina e leve em ingenuidade, para que o mal se tornasse superlativo: Cosette, filha de Fantini e que seria cuidada por Jean Valjean. E Gavroche? Uma criança ingenuamente miserável e que faria da miséria o seu mundo infantil. Sua casa seria num monumento inacabado, um elefante, da Paris das artes públicas, dos despojos de Napoleão que tanto contribuíram para o Louvre. Dentre tantos monumentos ilustres, o elefante de Gavroche, onde dormia, a disputar espaços com ratos. Gavroche, um moleque, e daí seria necessário ler a descrição sobre a infância em Paris naquele período (in “Terceira Parte – Marius, Livro I “Paris estudava em seus átomos”, pp. 551 a 569, Vol I). Gavroche morreria criança, vitimado no conflito de 1832. Miseráveis também seriam os revoltosos. Morreriam naquela barricada, comandados por Enjolras, Courfeyrac e Combeferre, e que desejavam a revolução da revolução, a liberdade da liberdade. Marius, que com Cosette daria prolongamento à esperança do amor, símbolo da continuidade e resistência, também não passava de um pobre miserável.

Todos miseráveis. Javert, miserável defensor do sistema, do poder, e perseguidor incansável do que considerava justo, acabaria por cometer suicídio. O poder cometendo suicídio e se matando por não se compreender nem saber de quem se tratava, é o exagero da ironia de Hugo. Isso faz do Estado e  personagem, mais miseráveis ainda. Jean Valjean também morreria no final, depois de ter perdido a vida fugindo, e seria sepultado próximo a uma vala comum, sem nome, numa lápide cujo registro poético de sua vida também se apagaria. É o exagero radicalizado da vida dos miseráveis que não fazem parte da memória. A morte do símbolo da acefalia do poder e do Estado com Javert, e o prolongamento da vida do miserável Jean Valjean, e depois a sobrevivência do amor de Cosette e Marius, oferecem à tragédia a esperança de um tempo quando houve cansaço de tanta guerra, morte e sangue. Essa era a Paris do século XIX. Contudo, os miseráveis serão sempre miseráveis, em qualquer regime político, e independente de qualquer resistência. Hugo registra assim um verdadeiro ensaio do cotidiano, pessoas comuns e sofridas, numa infelicidade latente na inimaginável França daquele período, entre Waterloo, 1815, e a insurreição de 1832.

Em síntese, Jean Valjean, que havia sofrido nas Galés em razão de ter furtado um pão, torna-se empresário e prefeito, humano, como deveria ser o exercício de qualquer poder. Ao conhecer Fantini, a esta, quando de sua morte, promete cuidar de sua filha, Cosette, que se encontrava na hospedaria dos Thénardies. Reconhecido por Javert, que se tornara seu subordinado, recomeça a perseguição que termina com o suicídio deste. Entrecortando esta linha mestre, o texto é rico em personagens e detalhes e vale a pena ser lido.

Sobre o próprio texto, Victor Hugo diz:

“O livro que o leitor, neste momento, tem diante dos olhos é, do princípio ao fim, em seu conjunto e em seus detalhes, sejam quais forem as intermitências, as exceções ou falhas, a caminhada do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a consciência, da podridão para a vida, da bestialidade para o dever, do inferno para o céu, do nada para Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada: a alma. Hidra no início, anjo no fim.” (Volume II, p. 408)

Fui lendo e grifando, ora lia sem grifar, o que torna o trabalho ainda mais imperfeito. Lamentei, ao rever as anotações, o longo trecho que deixei de fazer qualquer grifo no Volume II. Contudo, ler a obra completa, ora em aeroporto ou filas de espera, ora no silêncio das tardes, manhãs ou noites, foi um desafio compensado pelo prazer de vivenciar o cotidiano na França pós Revolução Francesa e Império Napoleônico. É um encontro com a Paris das barricadas, dos becos e ruelas, antes que a reforma da cidade abrisse grandes avenidas, como a Champs-Élyseé, e assim a tornasse um campo aberto para o controle e exercício do poder.

Separei para você algumas frases e trechos, só para aguçar o seu interesse e curiosidade. Após as primeiras citações seguem outras, talvez até mesmo em número excessivo e que faria desistir qualquer leitor. Digitá-las foi, de fato, trabalhoso e, se puder, leia-as. Isso é quase um pedido pessoal e certamente compensará o meu esforço (risos).

Boa leitura.

As primeiras citações:

“Há homens que trabalham na extração do ouro; ele trabalhava na extração da piedade. Sua mina era a miséria universal.” (Volume I, p. 78)

“O caçador furtivo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar. As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar, a floresta, produzem homens selvagens; desenvolvem o lado feroz, mas frequentemente não destroem o lado humano.” (Volume I pp. 103/4)

“Mas uma velhinha, que lhe acendia a vela retornava à note, ensinou-lhe a arte de viver na miséria. Ainda além do viver com pouco, há o viver com nada. São duas câmaras: a primeira é sombria, a segunda negra.” (Volume I, p. 191)

“O que é essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. De quem? Da miséria. Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita.” (Volume I, p. 196)

“Não lia outra coisa senão um livro de orações, em grandes letras e em latim. Ela não entendia o latim, mas compreendia o livro.” (Volume I, p. 221)

“Após o combate, houve pressa em sepultar os cadáveres. A morte tem uma maneira própria de incomodar a vitória, ela faz a glória vir seguida pela peste. O tifo é um anexo do triunfo.” (Volume I, p. 307)

“Babilônia violada, diminui Alexandre; Roma acorrentada, diminui César; Jerusalém destruída, diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraçado o homem que deixa atrás de si a sombra de sua forma.” (Volume I, p. 313)

“Bonaparte caído parecia mais alto do que Napoleão de pé.” (Volume I, p. 349)

“Tales esteve quatro anos imóvel. Fundou a filosofia” (Volume I, p. 500)

“Havia cinco anos que Marius vivia na pobreza, na privação, na penúria mesmo, mas percebeu que não havia conhecido a verdadeira miséria. A verdadeira miséria, ele acabava de vê-la. Era aquela larva que acabava de passar por seus olhos. É que, na verdade, quem só viu a miséria do homem nada viu; é preciso ver a miséria da mulher; quem só viu a miséria da mulher nada viu; é preciso ver a miséria da criança.” (Volume I, p. 705)

“Vamos, quando não houver mais reis, não haverá guerras” (Volume II, p. 370)

“ – Talvez Deus esteja morto – dizia um dia Gérard de Nerval a quem escreve estas linhas, confundindo o progresso com Deus e tomando a interrupção do movimento pela morte do Ser.” (Volume II, p. 403)

“Existem pessoas que observam as leis da honra como observam as estrelas, de muito longe.” (Volume II, p. 410)

“Quando um homem vestido pelo Estado persegue um homem esfarrapado, é a fim de torná-lo também um homem vestido pelo Estado. A questão está na cor. Estar vestido de azul é glorioso; estar vestido de vermelho é desagradável.” (Volume II, p. 447)

Demais citações:


Volume I

“...O belo é tão útil quanto o que é útil. E após um momento de silêncio acrescentou: Até mais, talvez”. (p. 47)

“Acaso eu não seria médico, assim como eles? Também tenho meus enfermos; primeiro, tenho os deles, a que chamam de doentes; depois, tenho os meus, a quem chamo de infelizes.” (p. 48)

 
“A prova mais concludente da caridade do padre, e sobretudo do bispo, é a pobreza.” (p. 69)

“Era um padre, um sábio, um homem.” (p. 70)

“Todo bispo influente é cercado por uma patrulha de querubins seminaristas, que guarda e mantém a boa ordem do paço episcopal fazendo sentinela em torno do sorriso de monsenhor. Agradar um bispo é o meio caminho andado para um subdiaconato.” (pp. 71/2)

“Ganhe na loteria e será considerado um homem hábil.” (p. 73)

“A seus pés, o que se pode cultivar e colher; sobre sua cabeça, o que se pode estudar e meditar; algumas flores na terra e todas as estrelas no céu.” (p. 77)

“O apóstolo pode ser ousado, mas o bispo deve ser tímido.” (p. 77)

“...mas não se pode orar em demasia mais do que amar em demasia.” – (p. 78)

“Há homens que trabalham na extração do ouro; ele trabalhava na extração da piedade. Sua mina era a miséria universal.” (p. 78)

“Quem se sente oprimido não olha para trás e sabe muito bem que a má sorte o persegue.” (p. 84)

“Nem sequer sou um cão!” (p. 88)

“Não enxergávamos bem. Ele falava, mas, por estar muito ao fundo, não entendíamos. Isso é um bispo.” (p. 96)

“A ignomínia tem sede de consideração.” (p. 96)

“Aquela porta não pergunta a quem entra se tem nome, mas se tem alguma amargura. O senhor sofre; tem fome e sede, seja bem-vindo! Não me agradeça por isso, não diga que o recebo em minha casa. Ninguém aqui está em sua casa, a não ser aquele que precisa de asilo” (p. 96)

“O caçador furtivo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar. As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar, a floresta, produzem homens selvagens; desenvolvem o lado feroz, mas frequentemente não destroem o lado humano.” (pp. 103/4)

“O excesso do castigo não seria a aniquilação do delito, resultando na inversão da situação, o erro do delinquente sendo substituído pelo erro da repressão, fazendo do criminoso a vítima e do devedor credor, e pondo definitivamente o direito do lado de quem o violara?” (p. 107)

“Quando saiu da prisão, havia dezenove anos que Jean Valjean não vertia uma lágrima.” (p. 112)

“Mar, a inexorável escuridão social onde a penalidade arremessa seus condenados. Mar, a imensa miséria! /A alma, na correnteza desse abismo, tornar-se cadáver. Quem a ressuscitará?” (p. 114)

“Liberdade não estar solto. Pode-se sair da prisão, mas não da condenação.” (p. 115)

[Jean Valjean] – “Sou um miserável” (p. 127)

[Jean Valjean] “Uma voz dizia-lhe ao ouvido que acabava de atravessar o momento solene de seu destino, que já não tinha meio-termo; que, a partir de então, se não fosse o melhor dos homens, seria o pior; que agora precisava, por assim dizer, elevar-se acima do bispo ou ficar abaixo do condenado; que, se quisesse tornar-se bom, deveria virar anjo, e, se quisesse continuar perverso, deveria virar monstro.” (p. 128)

 
“Sábio e filósofo são coisas diferentes, e a prova é que, feitas todas as reservas a cada um desses pares, Favourite, Zéphine e Dhalia eram filósofas, e Fantine, sábia.” (p. 138)




“Esse medíocre jogo de palavras [tratavam-se de palavras de ordem] fez o efeito de uma pedra atirada em um charco: calaram-se as rãs. É que o Marquês de Montcalm era, então, um célebre realista.” – (p. 149)

“Eu me chamo Felix e não sou feliz. As palavras são mentirosas” (p. 151)

“No amor não há amigos! Onde houver uma mulher bonita, haverá hostilidades! Nada de quartel; guerra e mais guerra! Uma mulher bonita é um casus belli – motivo de guerra -, uma mulher bonita é um flagrante delito. Todas as invasões da história foram causadas por saias.” (p. 151)

“Consinto em viver. Nem tudo está acabado sobre a terra, pois ainda se pode fazer extravagâncias! Rendo graças aos deuses imortais! Mente-se, mas ri-se. Afirma-se, mas duvida-se. O inesperado jorra do silogismo. É lindo! Ainda há neste mundo homens que sabem abrir e fechar alegremente a caixinha de surpresas do paradoxo.” (p. 154)

“ – disse Favourite. – Isso me torna apaixonada por ele. É só ir embora, logo é amado. Essa é a história!” (p. 158)

“Fantine olhava para elas comovida. A presença dos anjos é um anúncio de paraíso.” (p. 163)

“Cinco anos, dirão, é inacreditável. Mas infelizmente é verdade. O sofrimento social começa em qualquer idade. [...] A injustiça a tornara intratável, e a miséria, feia. [...] Na aldeia a chamavam de Cotovia. [...] Mas a pobre Cotovia jamais cantava.” (p. 170)

“Os dois principais funcionários do Estado são o professor e a ama.” (p. 173)

“Ele dera-lhe [a Fantine] cinquenta francos porque era bom, e a expulsava porque era justo. Ela vergou-se ao peso de tal sentença!” (p. 190)

“Mas uma velhinha, que lhe acendia a vela retornava à note, ensinou-lhe a arte de viver na miséria. Ainda além do viver com pouco, há o viver com nada. São duas câmaras: a primeira é sombria, a segunda negra.” (p. 191)

“Fantini pensou: Minha filhinha não tem mais frio, a vesti com meus cabelos.” (p. 193)

“O que é essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. De quem? Da miséria. Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita.” (p. 196)

“A sagrada lei de Cristo governa a nossa civilização, mas ainda não a impregnou. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e se chama prostituição. Pesa sobre a mulher, isto é, sobre a graça, sobre a fraqueza, sobre a beleza, sobre a maternidade. E essa não é uma das menores vergonhas do homem.” (p. 197)

[Fantine] “Tornou-se mármore ao converter-se em lama.” (p. 197)

“Se fosse mais ricos, diriam: são elegantes; se fossem mais pobres, diriam, são vadios. [...] Naquela época, bigode significa burguês, e esporas, peão.” (p. 198)

“A curiosidade é uma guloseima. Ver é devorar.” (p. 200)

“Uma grande dor é um raio divino e terrível que transfigura os miseráveis.” (p. 201)

[Fantine] “- Eu orava ao mártir que está no céu. E acrescentou em seu pensamento: Pela mártir que está na terra.” (p. 208)

“É muito fácil ser bom, o difícil é ser justo.” (p. 218)

“Não lia outra coisa senão um livro de orações, em grandes letras e em latim. Ela não entendia o latim, mas compreendia o livro.” (p. 221)

“Há um espetáculo mais grandioso que o mar, é o céu; e há outro mais grandioso que o céu, é o interior da alma.” (p. 225)

“Era a sua consciência. Sua consciência, quer dizer, Deus.” (p. 228)

“Está decidido, vamos deixar correr as coisas! Vamos deixar por conta do bom Deus!” (p. 231)

“Não se pode impedir  o pensamento de retonar a uma ideia, assim como não se impede o mar de retonar à praia. Para o marinheiro, o nome disso é maré; para o culpado, remorso. Deus agita a alma como agita o oceano.” (p. 231)

“Via igualmente, como movendo-se diante dele, e com formas sensíveis, as duas ideias que, até então, haviam sido a dupla regra de sua vida: esconder seu nome, santificar sua alma.” (p. 233)

“E por mais que fizesse, recaía sempre nesse pungente dilema que ficava no fundo de seus devaneios: ficar no paraíso e tornar-se demônio! Voltar para o inferno e tornar-se anjo!” (p. 240)

“Quando eu era criança, me chamavam de Pequeno, agora me chamam de Velho.” (p. 275)

“Era uma figura de uns sessenta anos, com aparência de homem de negócios e ar de velhaco, duas coisas que às vezes andam juntas.” (p. 276)

“Não há sentimento humano mais assustador do que a alegria. Era o rosto de um demônio que acabava de encontrar seu condenado.” (p. 290)

“A probidade, a sinceridade, a candura, a convicção, a noção do dever, são coisas que podem tornar-se medonhas quando mal interpretadas, mas que, mesmo medonhas, continuam grandiosas; sua majestade, própria da consciência humana, persiste no horror. São virtudes que têm um vício, um erro. A alegria impiedosa, mas honesta, de um fanático em plena atrocidade, conserva um certo brilho lugubremente venerável.” (p. 291)

“Javert bateu o é no chão.
- Agora é a outra! Quer ficar quieta, sem-vergonha! Que diabo de lugar é esse onde os forçados são magistrados, e as meretrizes são tratadas de condessas!... Mas tudo isso vai mudar, já não era sem tempo!” (p. 293)

“Há ilusões tocantes, que talvez sema realidades sublimes.” (p. 294)

“As violências do destino têm de peculiar que, por mais perfeitos ou indiferentes que sejamos, arrancam nossa natureza humana do fundo das entranhas, forçando-a a mostrar-se exteriormente.” (p. 297)

“Após o combate, houve pressa em sepultar os cadáveres. A morte tem uma maneira própria de incomodar a vitória, ela faz a glória vir seguida pela peste. O tifo é um anexo do triunfo.” (p. 307)

“A velhice não alcança os gênios do ideal; para os Dantes e Michelangelos, envelhecer é crescer; para os Aníbais e Bonapartes será minguar?” (p. 311)

“Babilônia violada, diminui Alexandre; Roma acorrentada, diminui César; Jerusalém destruída, diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraçado o homem que deixa atrás de si a sombra de sua forma.” (p. 313)

“o soldado atirador, de certo modo entregue a si mesmo, torna-se, por assim dizer, general de si mesmo.” (p. 315)

“para pintar uma batalha deve haver poderosos pintores com o caos em seus pincéis; melhor Rembrandt que Vandermeulen. Vandermeulen, exato ao meio-dia, mente às três da tarde. A geometria engana; só o furacão é verdadeiro.” (p. 316)

“Nossa alegrai são sombra; o supremo sorriso a Deus pertence.” (p. 319)

“Na batalha de Waterloo houve mais que nuvens, houve um meteoro. Foi Deus que passou por ali.” (p. 338)

“Wellington era o Barême da guerra, Napoleão o Michelangelo; mas o gênio, dessa vez, foi vencido pelo cálculo.” (p. 343)

“Waterloo é uma batalha de primeira ordem, ganha por um capitão de segunda.” (p. 343)

“Fim da ditadura. Todo um sistema da Europa desmoronou.” (p. 347)

“Aquele 1815 foi uma espécie de abril lúgubre. As velhas realidades doentias e venenosas cobriram-se  de aparências novas. A mentira esposou 1789, o direito divino disfarçou-se em constituição, as ficções tornaram-se constitucionais, os preconceitos, as superstições e as segundas intenções envernizaram-se de liberalismo, tendo no coração o artigo 14. Troca de pele as serpentes.” (p. 348) Em nota de rodapé: o artigo 14 dava ao chefe de Estado poderes de exceção.

“Bonaparte caído parecia mais alto do que Napoleão de pé.” (p. 349)

“O que é certo é que, em geral, após os vencedores, vêm os ladrões. [...] Todo exército tem uma cauda, e é isso que devemos acusar. Homens-morcego, meio bandidos, meio laicos, todos os tipos de animais noturnos engendrados por esse crepúsculo que chamamos de guerra, gente que veste uniformes, mas que não combate, falsos doentes, temíveis estropiados, taverneiros suspeitos trotando, algumas vezes com suas mulheres, em cima de pequenas charretes, roubando para revender, mendigos se oferecendo como guias aos oficiais, homens grosseiros, saqueadores;...” (p. 351)

“... o mundo civilizado gastava com pólvora, por toda a terra, a cada vinte e quatro horas, cento e cinquenta mil tiros inúteis de canhão. A seis francos cada tiro, são novecentos mil francos por dia, trezentos milhões por ano que se vão em fumaça. Mero detalhe. Enquanto isso, os pobres morrem de fome.” (p. 363)

“Não se deve adormecer nem à sombra de uma figueira-venenosa, nem à sombra de um exército.” (p. 365)

“A presença de um navio de guerra em um porto tem algo que atrai e ocupa a multidão. É sua grandeza, e a multidão ama o que é grande.” (p. 365)

“Toda vez que uma força imensa se expande para chegar a uma imensa fraqueza, o homem é levado a pensar.” (p. 366)

“Há momentos em que a ponta de uma corda, uma vara, um galho de árvore, são a própria vida; e é uma coisa medonha ver um ser humano desprender-se e cair como um fruto maduro.” (p. 367)

“Quando se encontram assim, desde que vieram ao mundo, pequeninas e despidas, entre os homens, o que acontece nessas almas que acabaram de sair de perto de Deus?” (p. 377)

“É uma mistura bastante rara, que inspira nos corações inteligentes o duplo respeito por quem é muito pobre e por quem é muito digno.” (p. 385)

“Thénardier érea dessas naturezas duplas que às vezes passam por nós sem nos darmos conta, e desparecem sem ser conhecidas, porque o destino mostrou apenas um dos lados.” (p. 414)

“Cem anos é a juventude de uma igreja e a velhice de uma casa. Parece que a morada do homem faz parte de sua brevidade e a morada de Deus, de sua eternidade.” (p. 421)

“Grandes bobagens são frequentemente, como grossas cordas, formadas por uma multidão de fios. Peguem a corda fio por fio, tomem separadamente todos os pequenos motivos determinantes, rompam um após o outro e dirão: É só isso! Mas, ao serem entrelaçados e torcidos juntos, tornam-se uma enormidade; é Átila hesitando entre Marciano no Oriente e Valentiniano no Ocidente; é Aníbal dmorando-se em Cápua, é Danton adormecendo em Arcis-sur-Aube.” (p. 461)

“As jovens se divertiam sob a vigilância das religiosas; o olhar da impecabilidade não constrange a inocência.” (p. 473)

“ – Minha mãe não estava lá quando eu nasci!” (p. 475)


“A contemplação, assim como a oração, é uma necessidade da humanidade; mas, como tudo o que a Revolução tocou, há de transformar-se, e, de hostil, tornar-se favorável ao progresso social.” (p. 489)

“O monaquismo, tal como existia na Espanha e tal como existe no Tibete, é uma espécie de tísica para a civilização. Paralisa de uma vez a vida. Despovoa, simplesmente. Clausura, castração. Foi um flagelo para a Europa. Acrescentem a isso a violência, tão frequentes vezes feita à consciência; as vocações forçadas; a feudalidade apoiando-se no claustro; a primogenitura vertendo no monaquismo o excesso da família; as ferocidades de que acabamos de falar; os in-pace; as bocas fechadas; os cérebros murados; tantas inteligências desafortunadas metidas no calabouço dos votos eternos; fazer-se frade ou freira, sepultamento das almas vivas. Acrescentem os suplícios individuais às degradações nacionais, e, sejam vocês quem forem, sentirão um tremor em presença do hábito e do véu, duas mortalhas de invenção humana.” (p. 494)

“É próprio da verdade nunca ser excessiva.” (p. 495)


“É preciso que o ideal seja respirável, potável e comestível pelo espírito humano. O ideal é que tem direito de dizer: Tomai, essa é a minha carne, esse é o meu sangue.” (pp. 499/0)

“Quando se trata dos conventos, desses lugares de erro, mas de inocência, de desvario, mas de boa vontade, de ignorância, mas de dedicação, de suplício, mas de martírio, é preciso quase sempre dizer sim e não.
Um convento é uma contradição” (p. 500)

“No claustro, o inferno é aceito como adiantamento de herança sobre o paraíso.” (p. 500)

“Tales esteve quatro anos imóvel. Fundou a filosofia” (p. 500)

“Leibnitz orando, isso é grande; Voltaire adorando, isso é belo. Deo erexit Voltaire.
Somos pela religião contra as religiões.” (p. 501)

“Deus subordinado ao comissário de polícia; assim é este século.” (p. 517)

“Ninguém pensa verdadeiramente no inferno. Oh! Gente maldosa! Por parte do rei significa, hoje em dia, por parte da Revolução. Não se sabe mais o que se deve, nem aos vivos, nem aos mortos. É proibido morrer santamente. O sepulcro é um negócio civil.” (p. 518)

“Quando alguém quase chegou a concluir seus estudos, é meio filósofo.” (p. 530)

 
“Senhor procurador do rei, é permitido que eu ande com minha cicatriz?” (p. 588)

“O sapo olha sempre para o céu; por quê? Para ver o pássaro voar.” (p. 627)

“A juventude é a estação das prontas soldaduras e das cicatrizações rápidas.” (p. 631)

“A vaidade tem avesso e direito; o direito é estúpido, é o preto coberto de vidrilhos; o avesso é tolo, é o filósofo coberto de farrapos.” (p. 634)

“Estar entre duas religiões, uma, da qual ainda não se saiu, outra, na qual ainda não se entrou, é insuportável; e esses crepúsculos só agradam às ‘almas morcego’.” (p. 644)

“Os velhos precisam de afeição tanto quanto de sol. Afeição é calor.” (p. 652)

“A miséria, repetimos, fora-lhe útil. A pobreza na juventude, quando produz bons efeitos, tem de admirável fazer a vontade inteira voltar-se para o esforço e a alma inteira para a aspiração.” (p. 653)

“O primeiro jovem que aparecer (...) sempre causará inveja a um velho imperador.” (p. 654)

“... bendiz a Deus por ter-lhe dado estas duas riquezas que faltam a muitos ricos, o trabalho que o torna livre, e o pensamento que o torna digno.” (p. 654)

“A mocidade acompanhada de ternura produz nos velhos o efeito do sol sem o vento.” (p. 657)

“... e o senhor Mabeuf falava-lhe do herói do ponto de vista das flores.” (p. 657)

“De resto, como acabamos de indicar, os cérebros absorvidos em uma sabedoria, ou em uma loucura, ou, o que é muito frequente, nas duas coisas ao mesmo tempo, apenas lentamente se tornam permeáveis às coisas da vida. Seu próprio destino lhes é distante. Resulta dessas concentrações uma passividade que, se fosse razoável, pareceria com a filosofia.” (p. 658)

“Um relógio não para repentinamente, no preciso momento em que perdemos sua chave.” (p. 658)

“Havia cinco anos que Marius vivia na pobreza, na privação, na penúria mesmo, mas percebeu que não havia conhecido a verdadeira miséria. A verdadeira miséria, ele acabava de vê-la. Era aquela larva que acabava de passar por seus olhos. É que, na verdade, quem só viu a miséria do homem nada viu; é preciso ver a miséria da mulher; quem só viu a miséria da mulher nada viu; é preciso ver a miséria da criança.” (p. 705)

“As cidades, assim como as florestas, têm seus antros nos quais se esconde tudo o que elas encerram de mais temeroso e perverso. Com a diferença de que, nas cidades, o que assim se esconde é feroz, imundo pequeno, isto é, feio; nas florestas o que se esconde é feroz, selvagem e grande, quer dizer, belo. Covil por covil, o dos animais é preferível ao dos homens. As cavernas são melhores do que as espeluncas.” (p. 707)

“Hoje meninas; amanhã mulheres. Pode-se dizer que saltam a vida, para chegar ao fim mais depressa.” (p. 709)

“O casebre, o porão, o buraco onde certos indigentes rastejam, no mais baixo nível do edifício social, não são o sepulcro, são sua antecâmara; mas como os opulentos que ostentam suas maiores magnificências à entrada de seus palácios, parece que a morte, que está bem ao lado, coloca suas maiores misérias nesse vestíbulo.” (p. 710)

“Lambo suas patas hoje de manhã, mas à noite vou roer o seu coração!” (p. 752)

“Esses hediondos e delicados produtos de uma arte prodigiosa são, para a joalheria, o que as metáforas da gíria são para a poesia.” (p. 765)



Volume II

“Ora, para nós, na história, onde a bondade é pérola rara, quem foi bom quase supera quem foi grande.” (p. 28)

“Deus entrega suas visíveis vontades aos homens por meio dos acontecimentos, texto obscuro escrito em uma língua misteriosa. Os homens tentam apressadamente traduzi-lo; são traduções prematuras, incorretas, cheias de erros, de lacunas e contra-sensos. Muito poucos espíritos compreendem a língua divina. Os mais sagazes, os mais calmos, os mais profundos decifram lentamente, e, quando chegam com seu texto, o trabalho já foi feito há muito tempo, já existem vinte traduções em praça pública. De cada tradução nasce um partido, e de cada contrassenso uma facção; e cada partido julga possuir o único texto genuíno, e cada facção julga possuir a luz.” (p. 29/0)

“O nosso coração é tão agitado, e a vida humana um tal mistério, que, mesmo em um assassinato cívico, mesmo em um assassinato libertador, se é que isso existe, o remorso de ter ferido um homem ultrapassa o prazer de ter sido útil ao gênero humano.” (p. 352)

“- Que seja! Elevemos a barricada a seis metros de altura e fiquemos nela. Cidadãos, façamos o protesto dos cadáveres. Mostremos que, se o povo abandona os republicanos, os republicanos não abandonam o povo.
Essas palavras liberavam da penosa nuvem de ansiedades individuais o pensamento de todos. Uma entusiástica aclamação as escolheu.
Nunca se soube o nome do homem que assim falou; foi talvez algum ignorado operário, um desconhecido, um esquecido, um herói passageiro, esse grande anônimo sempre aliado às crises humanas e às gêneses sociais que, na ocasião oportuna, profere de um modo supremo a frase decisiva e desaparece nas trevas, depois de representar por um instante, à luz de um relâmpago, o povo de Deus.” (p. 354)

 
“Essa soberania de mim sobre mim chama-se Liberdade. Onde duas ou mais destas soberanias se associam, principia o Estado. Mas, nessa associação não há nenhuma abdicação. Cada soberania concede certa quantidade de si mesma para formar o direito comum. Essa quantidade é igual para todos. Essa identidade de concessão que cada um faz a todos chama-se Igualdade. O direito comum nada mais é que a proteção de todos brilhando sobre o direito de cada um. Essa proteção de todos sobre cada um chama-se Fraternidade. O ponto de interseção de todas essas soberanias chama Sociedade. Sendo essa interseção uma junção, esse ponto é um nó. Daí vem o que chamamos de laço social. Alguns dizem contrato social, o que é a mesma coisa;” (p. 362)

“Vamos, quando não houver mais reis, não haverá guerras” (p. 370)

“A juventude é o sorriso do futuro diante do desconhecido que é ele mesmo. Parece-lhe natural ser feliz. Parece que sua respiração é feita de esperança.” (p. 373)

“Um conto oriental diz que a rosa foi feita branca por Deus, mas, quando Adão olhou pra ele no instante em que se abria, envergonhou-se e ficou rosa. Somos daqueles que se sentem interditados diante das moças e das flores, achando-as vulneráveis.” (p. 374)

“- É um homem que pratica o bem a tiros de fuzil – disse Combeferre.” (p. 377)

“Horácio, Goethe, e talvez La Fontaine, eram dessa família; magníficos egoístas do infinito, espectadores tranquilos da dor, que, se o tempo está bom, não veem Nero, e para quem o sol esconde as fogueiras, que olhariam guilhotinar procurando um efeito de luz, que não ouviriam nem o grito, nem o soluço, nem o estertor, nem o sino, para quem tudo está bem já que o mês de maio existe; para quem, enquanto houver nuvens de púrpura e de ouro acima de suas cabeças, haverá contentamento, e que se determinam a ser felizes até que se esgote o brilho dos astros e o canto dos pássaros.” (p. 388)

“A indiferença desses pensadores é, segundo dizem alguns, uma filosofia superior.” (p. 389)

“Quem acusar?
Ninguém e todos.
Os tempos incompletos em que vivemos.
É sempre com esses riscos e perigos que a utopia se transforma em insurreição, e de protesto filosófico se transforma em protesto armado, e de Minerva em Palas. A utopia que se impacienta e se torna revolta sabe o que a espera; quase sempre chega cedo demais.” (p. 402)

“ – Talvez Deus esteja morto – dizia um dia Gérard de Nerval a quem escreve estas linhas, confundindo o progresso com Deus e tomando a interrupção do movimento pela morte do Ser.” (p. 403)

“Seja como for, mesmo caídos, principalmente caídos, são grandiosos esses homens que, em todos os pontos do universo, e olhos fixos na França, lutam pela grande obra com lógica inflexível do ideal; eles dão a própria vida, como pura doação. [...] Esses soldados são sacerdotes. A Revolução Francesa é um gesto de Deus.” (p. 405)


“Existem pessoas que observam as leis da honra como observam as estrelas, de muito longe.” (p. 410)


“O barulho não acorda um embriagado; o silêncio o desperta.” (p. 417)

“Tudo o que se maquiava se borra. O último véu é arrancado. Um esgoto é um cínico. Ele diz tudo.
Essa sinceridade da imundície nos agrada, e repousa a alma.” (p. 426)

“A filosofia é o microscópio do pensamento.” (p. 427)

“Quando um homem vestido pelo Estado persegue um homem esfarrapado, é a fim de torná-lo também um homem vestido pelo Estado. A questão está na cor. Estar vestido de azul é glorioso; estar vestido de vermelho é desagradável.” (p. 447)

“Algo? O quê? Existe no mundo outra coisa além de tribunais, de sentenças executórias, de polícia e autoridade? Javert estava transtornado.” (p. 479)

“Que Javert e Jean Valjean, o homem feito para castigar e o homem feito para ser castigado, que esses dois homens, que eram, um e outro, coisas da lei, tivessem chegado a ponto de se colocarem, os dois, acima da Lei, não era assustador?” (p. 479)

“A generosidade de Jean Valejan para com ele, Javert, o oprimia” (p. 479)

“Para Javert, o ideal não era ser humano, ser grande, ser sublime; era ser irrepreensível.” (p. 481)

“Ser obrigado a confessar-se o seguinte: que a infalibilidade não é infalível, que pode existir erro no dogma, que um código não prevê tudo, que a sociedade não é perfeita, que a autoridade se complica por vacilações, que um abalo no imutável é possível, que os juízes são homens, que a lei pode enganar-se, que os tribunais podem errar! Que se pode ver uma fenda na imensa vidraça azul do firmamento!” (p. 483)

“Um honesto servidor da lei podia ver-se, de repente, preso entre dois crimes, o crime de deixar escapar um homem e o crime de prendê-lo! Nem tudo era certo nas instruções dadas pelo Estado ao funcionário! Poderiam existir impasses no dever!” (p. 484)

“Assim – no crescimento da angústia e na ilusão de óptica da consternação, tudo o que poderia ser restringido e corrigido sua impressão se apagava, e a sociedade, e o gênero humano, e o universo a partir daquele momento resumiam-se, a seus olhos, a um esboço simples e terrível -, assim a penalidade, a coisa julgada, a força devida à legislação, as sentenças das cortes soberanas, a magistratura, o governo, a prevenção e a repressão, a soberania oficial, a infalibilidade legal, o princípio da autoridade, todos os dogmas em que se baseiam a segurança pública civil, a soberania, a justiça, a lógica que deriva do código, o absoluto social, a verdade pública, tudo isso não passava de destroços, amontoados, caos;” (p. 484)

“O jovem entrava em sua vida, o homem mais velho se apagava; a vida é assim.” (p. 505)

“O amor é ótimo, mas é preciso estar acompanhado dessas coisas. A felicidade precisa do inútil. A felicidade é apenas o necessário. Tempere-a com supérfluos. Um palácio e seu coração. Seu coração e o Louvre. Seu coração e os lagos de Versalhes. Dê-me minha pastora, mas trate de fazê-la duquesa. Dê-me Fílis coroada de flores, mas com cem mil libras de renda. Abra-me o bucólico, a perder de vista, mas sob uma colunata de mármore. Aceito o bucólico e também a arte em mármore e ouro. A felicidade sozinha é como pão seco.” (p. 506)

“Neste século, todos fazem negócios, todos jogam na Bolsa, todos ganham dinheiro, e todos são avarentos. Envernizam e cuidam da superfície, andam na estica, lavados, ensaboados, depilados, barbeados, penteados, encerados, alisados, espanados, escovados, limpos por fora, irrepreensíveis, polidos como um seixo, discretos e asseadinhos, e, ao mesmo tempo – essa é muito boa! – têm, no fundo da consciência, uma camada de esterco e cloacas que fariam recuar qualquer grosseirão que assoa o nariz nos dedos! Outorgo aos tempos de agora a divisa: ‘Limpeza suja’.” (p. 507)

“Hoje somos sérios. O burguês é avarento, a burguesa beata. O século de vocês é desafortunado. Expulsaríamos as Graças por andarem demasiado decotadas. Que pena! Esconde-se a beleza como se esconde o que é feio. Desde a Revolução, todo mundo usa calças, até as dançarinas; uma bailarina deve ser séria e as danças doutrinárias.” (p. 508/9)

“A vida tem dessas cortinas que descem. Deus passa ao ato seguinte.” (p. 512)

“A felicidade quer que todos estejam felizes.” (p. 528)

“Isso então é verdade? A alma pode curar-se, a sorte não.” (p. 537)

“Não basta ser feliz, é preciso ficar contente.” (p. 547)

[Jean Valjean] “- Há muito tempo, roubei um pão para viver; hoje, para viver, não quero roubar um nome.” (p. 549)

“A sinistra urtiga amara proteger o lírio.” (p. 562)

“Quando é o coração que escorrega, não é possível deter-se na ladeira.” (p. 571)

“De resto, aquilo que, em certos casos e de forma dura demais, chamamos de ingratidão dos filhos, nem sempre é uma coisa tão digna de censura como se acredita. É a ingratidão da natureza. A natureza, como já dissemos de outra feita, ‘olha para frente’, divide os seres vivos em criaturas que chegam e em criaturas que partem.” (p. 577)

“A juventude vai para onde há alegria, para as festas, para os amores, para a vida luminosidade. A velhice caminha para o fim. Não se perdem de vista, mas não há mais união. Os jovens sentem o resfriamento da vida, os velhos, o resfriamento do túmulo.” (p.578)

“- O que fazer – respondeu Jean Valjean -, se eu só tive fome de água?” (p. 578)

“- O que ele tem?
- Tudo e nada. É um homem que, ao que parece, perdeu uma pessoa muito querida. Disso também se morre.” (p. 579)