por Natanael Gabriel da Silva
ESPIN faz parte de uma elite intelectual-libertária,
herdeira do pensamento de Karl Rahner (1904-1984). Rahner havia colocado o ser
humano, a partir de um longo discurso existencial, como aquele que é o
portador da pergunta pelo Mistério Absoluto, ou seja, Deus se encontra na
existência (vida), primeiramente, não nos dogmas, como também não apenas na
hierarquia da Igreja. Com outras palavras, a vida é o lugar da presença do
divino. Isso parece simples, mas tanto a teologia católica como a protestante, fizeram
e fazem, a migração rápida da vida para as estruturas sacramentais, litúrgicas, dogmáticas ou sistemáticas. No caso do protestantismo, a Teologia
Sistemática, que difere da Dogmática por ter surgido a partir da livre interpretação
das Escrituras feitas nas comunidades de fé, num primeiro momento pode até se
dar como expressão de uma realidade teológico-cultural a partir do cotidiano,
mas, com o passar do tempo, acaba se solidificando. Ao se solidificar passa a
ser, não mais um emaranhado de enunciados que interpretam o sagrado, mas instrumentos
do poder clerical e da burocracia eclesiástica para segregar, excluir e impor
suas ideologias. Por conta disso, as comunidades históricas (presbiterianos,
batistas, metodistas, por exemplo) ainda são regidas por declarações centenárias,
mesmo que renovadas por meio de inúmeras atualizações. Isto é, ainda discutem
temas como “credibilidade das Escrituras”, como se a Reforma Protestante
tivesse acontecido ontem; ou debatem sobre a questão do gênero, numa sociedade
cada vez mais plural e livre; ou ainda filigranas que dão a esta ou àquela comunidade
a certidão histórica de uma igreja primitiva, neotestamentária. Tudo isso
enquanto a vida acontece e as grandes perguntas continuam ainda sem resposta.
Perguntas estas sobre humanização, da solidariedade, da inclusão (até mesmo da
própria religião), da justiça social, e por aí se vai, só para mencionar alguns
temas que, apesar do esforço, acabam se transformando mais em bandeira de
Congressos, e se perdem como ação e política de transformação.
Pois bem, ESPIN é um pastor católico, e o parágrafo acima,
que não faz parte de seu texto, teve por objetivo situar o leitor que, não
sendo ou não católico, certamente se identificará com a sua proposta e
preocupações. A percepção de ESPIN sobre o oprimido vem por conta de sua estada
na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana, onde conviveu com a
miséria em seu estado absoluto. Seu pensamento central sobre o excluído não é, necessariamente,
uma questão social. Vai além. Trata-se do desprezo que a elite religiosa tem, e
teve, para com o imaginário religioso dos marginalizados. Isto é, os oprimidos
não são apenas aqueles que suportam uma segregação econômica, mas também, e
principalmente, foram banidos com suas crenças por meio de uma segregação
religiosa. Para ele, a religião é onde a vida acontece e a Revelação de Deus é
um ato para a vida, não para as declarações de fé, dogmáticas ou sistemáticas.
Deus é uma presença na vida, e nela acontece a sua perfeita Revelação.
Para um católico, isso é demais. Um protestante já seria
chamado de liberal, uma palavra pouco conhecida, mas que virou jargão de teologia
inconsistente e ameaçadora em razão de sua ética inclusiva. A voz profética de
ESPIN, por meio de vários artigos que deram origem ao texto A Fé do Povo, é deliciosa de ser lida.
Humana, com ensaios históricos de profundidade, e uma análise de como a fé
cristã, católica (e certamente protestante também), acabou sendo recebida,
incorporada e aculturada no espaço popular da América Latina.
O texto é longo e rico. Só para aguçar o interesse do
leitor, quero considerar apenas o primeiro capítulo, O Deus dos Derrotados, que foi um artigo publicado anteriormente em
Listening: Journal of Religion and
Culture, 27.1.1992. pp. 70-83.
Na introdução, do livro como um todo, ESPIN já havia
apontado que, quando chegara às cidades de Dajabón e Loma de Cabrera, sua
primeira percepção foi a de que precisaria ensinar, ou catequizar, de maneira mais
precisa os fiéis, uma vez que os evangelizados se davam mais à devoção dos
santos e rituais do que a Cristo e o evangelho (p. 27). Contudo, logo
compreendeu que “O catolicismo do povo como lócus
theologicus não pode ser menosprezado”, (p.29) e esse lugar é a fé do povo,
onde a fé acontece. Sua preocupação com a inclusão vai além das oportunidades
sociais que poderiam ser dadas (p. 32), porque estas são apenas formas de
dissimulação. Será preciso ouvir a fé do povo.
Ao considerar o capítulo que estamos estudando, O Deus dos Derrotados, seu ponto de
partida é a identificação de Jesus de Nazaré, que foi também pobre e
perseguido, com a construção social e marginal dos oprimidos da América Latina.
Ele diz: “ – a experiência de Jesus de Nazaré – revela quem/o que/ como Deus
realmente é, então a humanidade dessa vida é, legitimamente, a analogia da
existência de Deus” (p. 45). A principal condição do que chamamos de Revelação
é a própria vida (p. 46) e os dogmas cristãos não podem precedê-la (p. 47). Ao
contrário do Deus empreendedor e acumulador de riquezas, como tem sido
preconizado comercialmente pelas empresas neopentecostais atualmente, o Jesus
de Nazaré é a figura explícita de um Deus derrotado, o que o torna próximo e
possível de ser compreendido pelos oprimidos da América Latina (p.54). A analogia
Deus-Jesus-pobre, pode ser lida assim: “Se Jesus é a analogia pela qual
percebemos definitivamente quem/o que/como Deus é, parece-me que, então entendemos o próximo derrotado como a
analogia contínua de Jesus” (p. 57 - sic).
Nesse ponto ESPIN entende que a questão do Jesus sofredor
não é apenas compreensão sobre os enunciados formais da fé, quando se pensa em
seus resultados e declinações dogmáticas ou doutrinárias, mas é a própria
hermenêutica da vida. Ou seja, o diálogo histórico de apropriação do discurso
religioso pelos pobres da América Latina passou pelo canal do sofrimento. Isso
se deu quando os pobres identificaram que, entre Jesus e eles, a vida havia
sido escrita de maneira muito próxima. Nesta identificação, o evangelho foi
recebido e depois parcialmente interpretado (parcialmente pela ótica da religião
oficial, evidentemente). Diz ESPIN: “A
proclamação do evangelho cristão só foi possível porque os evangelizados foram
primeiro conquistados, perderam suas terras e sua liberdade e tiveram suas
culturas invadidas” (p. 63 – sic). Ou
seja, ao gerar a miséria da conquista, criou-se a ponte hermenêutica de
comunicação para que o evangelho pudesse fazer sentido. Só que um fazer sentido
sem a dimensão canônica dos pronunciamentos oficiais sobre as regras de fé,
conceitos, etc. O que ocorrera, de plano, fora a adaptação do catolicismo formal/institucional
(e certamente também do protestantismo) às crenças populares do imaginário
religioso destas comunidades. Com isso dá-se o que ESPIN chama de “catolicismo
popular”.
Contudo, se a conquista da América Latina se deu por meio de
morte, escravidão e expropriação, e ao mesmo tempo trouxe a religião do
opressor, como então explicar o fato dos dominados terem optado pela religião
do dominador? A resposta de ESPIN que parece fazer muito sentido para o nosso
tempo, com a invasão da religião do sucesso e do progresso, vinda principalmente
do sistema estadunidense e por meio de cópias nacionais, onde está presente a
exploração do mercado religioso e a mercantilização da fé, a resposta de ESPIN,
dizia eu, é sem dúvida interessante. Ele coloca que, nas guerras entre deuses,
modo pelo qual os nativos certamente fizeram a leitura da chegada do europeu,
os sobreviventes sempre ficavam do lado do deus mais forte. O Deus mais forte e
vencedor merecia ser honrado, adaptado à cultura e crenças; foi assim,
incorporado. Quadro que ESPIN resume assim: “Como vimos, os latinos dos EUA
carregam a marca da vítima involuntária. Os euro-americanos trazem o sinal do
vencedor. Entre os cristãos, os primeiros projetam em Jesus seu sofrimento e os
segundos projetam seu sucesso. Os latinos concentram-se na cruz, enquanto os
euro-americanos enfatizam a ressurreição. Os dois grupos proclamam crer tanto
na cruz como na ressurreição e, contudo, suas projeções simbólicas expressam
suas diferentes experiências de vida fundamentais” (p. 65).
Por fim, conclui o artigo: “Portanto, o cristão deve, em
primeiro lugar, ter o compromisso de ser solidário com as vítimas sofredoras. E
esse compromisso precisa ser posto em ação em todos os aspectos da vida cotidiana,
particulares e públicos” (p. 72).
Infelizmente o texto A
Fé do Povo está esgotado. Se pesquisar, poderá encontrá-lo em algum sebo. A
estante virtual poderia ser um bom começo. Compartilho as minhas leituras
apenas do primeiro artigo. Os demais são: “2. O monoteísmo trinitário e a
origem do catolicismo popular – O caso do
México no século XVI; 3. A tradição e a religião popular – Entendimento do Sensus Fidelium; 4. Catolicismo
popular Alienação ou esperança?; 5.
Catolicismo popular entre os latinos; 6. A religião popular como epistemologia
(do sofrimento); 7. Iroko e Ará-Kolé: comentário exegético a um mito iorubá-licumí.)
Fique com o gostinho. Vale a pena conferir.
Boa leitura.
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