domingo, 8 de dezembro de 2013

TRISTES TRÓPICOS - Claude Lévi-Strauss




LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. Prólogo de Manuel Delgado Ruiz. Barcelona: Paidós Ibéria, 1988, 468 pp.

Foi Belchior quem me levou a ler “Tristes Trópicos”, em razão de sua canção “Retórica Sentimental”, álbum “Medo de Avião”, 1979. Neste poema, concreto, ao que nominou de “Cláusula Terceira”, Belchior poetou: “E por falar em sabiá ... O poeta Gonçalves Dias é que sabia./ § único - Sabe lá se não queria/uma Europa bananeira!/(Diga lá, tristes trópicos, sabiá laranjeira!)”.

Primeiro pensei que poderia fazer uma leitura recortada pelo interesse. Depois verifiquei que precisaria ler um pouco mais, e assim, tomado pelo encanto, caminhei pelas 468 páginas, fascinado, e viajei com Lévi-Strauss pelo Brasil, em meados do século XX. Aos poucos, a primeira intuição foi a de que a obra seguiria os passos de “Facundo”, de Sarmiento, ou de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, o primeiro escrito quase sessenta anos antes que o segundo, e que emprestaria a este a estrutura literária. Contudo aos poucos, dizia eu, “Tristes Trópicos” tomou vida própria, de rara beleza, detalhe, poesia, profundidade e, é claro, muita humanidade.

Talvez seja mesmo por esta razão que o texto não apresenta uma pesquisa científica no rigor que alguns desejavam, de acordo com o modelo científico do século XIX (p. 103), mas é um caminhar pela natureza a observar tribos, deixando transparecer uma melancolia pela perda do puro, não apenas por ser puro, mas em face da pluralidade da riqueza que o antropólogo encontrara e que estaria sentenciada ao desaparecimento, morte e esquecimento (p. 467). Não colocaria Lévi-Strauss, é claro, em sua caminhada, como aquele que apenas e tristemente, estivesse lamentando perder o seu objeto de pesquisa, isto é, a ter a conservação da tribo à disposição perene, feito fotografia etnográfica disponível a qualquer momento. Para ele, o pensamento científico é como uma pedra de ponta afiada, cujo custo é perder parte do que seja pedra, e ainda assim sua eficácia irá depender de quão profundamente consiga penetrar como cortante (p. 125). Sua melancolia, se é que esta seja uma palavra adequada, longe de ser técnica, prendia-se ao que ocorrera há quatrocentos anos com a chegada de Colombo à América. Este teria sido o primeiro pecado: chegar e invadir. Logo em seguida viria o segundo, o ideário do colonizador que trouxera o drama da cultura imposta: Deus, a moral, e as leis (p. 76). Cada qual destes três elementos poderia oferecer mais que informações sobre a imposição cultural na formação das sociedades situadas entre os trópicos, incluindo as asiáticas. No caso de Deus, dá-se o debate religioso sobre o sagrado e seus dramas não resolvidos no mundo europeu, e que nitidamente, fora colocado como única fundamentação religiosa, além do que, exclusiva; a moral, a partir da ética cristã, fora imposta como comportamento obrigatório e único, sem as questões culturais fossem compreendidas e que envolviam, ou não, a permissão da homossexualidade tida como infantil entre os adolescentes em determinada tribo (p. 337), por exemplo; por fim a Lei, ou o Direito Positivo, que constituía o Estado como pessoa jurídica, a organizar a sociedade, e impor tanto as obrigações, como regular a liberdade. Nenhum ordenamento jurídico daria conta, nem mesmo em explicar o modo de formação social dos Bororos, por exemplo, e a divisão da aldeia circular em dois sistemas como que espelhados (fig. 43, p. 259). A conjugação destes três fatores sufocou a cultura nativa e a expropriou da notável ingenuidade infantil, ainda presente, à época, nas tribos do interior do Brasil.

A crítica declarada de Lévi-Strauss ao colonizador se fixa na incompreensão dos leitores das possíveis pesquisas etnográficas e que ficavam a analisá-las confortavelmente nos grandes centros europeus. Temas sobre a Amazônia, o Tibete e a África eram envolvidos em anedotas e situações de viagens (p.20), por exemplo, o que certamente mostrava o desprezo pelas culturas que não compreendiam. Deste modo Lévi-Strauss tenta mostrar a contribuição de tais selvagens na construção do que poderia ser considerado o marco do atual mundo europeu, a Revolução Francesa. Diz Lévi-Strauss: “Os relatos de ditos viajantes se encontram no começo da tomada de consciência etnográfica dos tempos modernos: por sua involuntária influência, a filosofia política e moral do Renascimento tomou o caminho que a conduziria à Revolução Francesa” (p. 374). Ou seja, do Renascimento à Revolução Francesa, a cultura indígena se fazia presente no que havia de melhor na Europa. A Europa retribuía o ocorrido com descaso, imposição, e principalmente, destruição cultural, quando deveria se quedar diante de sua superioridade (p. 439), já que a barbárie estava no mundo considerado civilizado (p. 442).

Assim, “Tristes Trópicos” é uma costura de aproximação social/antropológica a partir de várias construções, que passa do ideário europeu, pelo caminho de Calcutá, São Paulo para, ao fim, chegar às aldeias e à cultura selvagem do interior do Brasil. São Paulo já contava com a despersonalização, o que, possivelmente o aproximava, como Estado, do mundo europeu (p. 101). A experiência de empobrecimento da Índia, pelo efeito Calcutá e sua explosão demográfica (p. 138), ao que parece, poderia ser tomada como referência e de provável ocorrência quanto aos destinos do Novo Mundo, terra tão linda, de recursos naturais quase infindáveis. Na verdade, para Lévi-Strauss a Ásia é o futuro que nos espera (p.154). Daí a preocupação do autor em descrever toda a riqueza natural para então colocar nela o humano indígena e sua cultura criada no entorno de seus próprios valores, tema esse presente no texto como um todo.

Não é possível fazer uma caminhada por todas as trilhas que o texto sugere, mas digno de nota é o capítulo 28 (p. 319), quando Lévi-Strauss trata do problema da linguagem, presente não apenas na fala, mas na cultura, no corpo e nos desenhos simétricos entre os caduveos, por exemplo (figuras 24 e 25, p. 200), ou ainda na arte dos tupí-kawaíb (figura 52 p. 388 e 53 p. 389), outro exemplo. No capítulo 28, porém, o autor cuida da passagem da sociedade da voz para a da letra. Exemplo disso foi o que teria ocorrido entre os nambiquaras que, segundo Lévi-Strauss, o aprendizado da língua teve um efeito mais sociológico que intelectual, ao contrário do que se esperava (p. 322). Diferente do que se poderia pensar, a cultura da voz não retém o personagem histórico exclusivamente em sua época (p. 323), discurso esse que tem a finalidade apenas de valorizar a letra. Para Lévi-Strauss o ensino da comunicação escrita teve um objetivo funesto e desumano: “Se minha hipótese é exata, tem-se que admitir que a função primária da comunicação escrita é facilitar a escravidão. O emprego da escrita com uma finalidade desinteressada para obter a satisfação intelectual e estética é um resultado secundário, e mais ainda quando não se reduz a um meio de reforçar, justificar ou dissimular o outro” (p. 324). Deste modo, Lévi-Strauss questiona o ideário educacional como libertador social, e acrescenta: “Acendendo ao saber presente nas bibliotecas, os povos se fazem vulneráveis às mentiras que os documentos impressos propagam em proporção ainda maior” (p. 325).

Ao que parece o impacto e encontro com os nativos do interior transformou, primeiramente, o próprio Lévi-Strauss, diante da grandeza dos que poderiam ser chamados de selvagens (p. 372), quando descobriu que os males compreendidos como degenerescência de inferiores, tinham sido provocados, na verdade, pelo colonizador (p. 385). Em seu longo discurso existencial (principalmente páginas 430/1) e que merece ser lido na íntegra, Lévi-Strauss compara a sua redescoberta da vida, narrada nos “Tristes Trópicos” à contemplação da profundidade quando transitara de Debussy a Chopin: só mesmo a completa ausência de conceito no belo do clássico é capaz de se aproximar da experiência da redescoberta da grande orquestra cultural da beleza havida no mundo considerado selvagem. Tudo isso na tentativa de responder algumas perguntas básicas de seu trabalho: “O que tinha vindo fazer aqui? O que esperava? Com que finalidade? O que é exatamente uma investigação etnográfica? É o exercício normal de uma profissão como as demais, com a única diferença de que o escritório e o laboratório estão separados do domicílio por alguns milhares de quilômetros?” (p. 430). Foi um encontro com sociedades organizadas de maneira substancialmente diferente do que conhecera, além de sistemas religiosos singulares e de rara beleza.

Finalmente, diante de tudo isso, Lévi-Strauss registra um lamento permeado de ceticismo quanto ao futuro de culturas tão ricas, e que poderiam indicar o caminho na construção de uma nova sociedade. Ele reconhece que nem a psicologia, nem a metafísica, nem mesmo a arte, poderiam se dar como refúgio, ou até mesmo uma possível nova sociologia. Entre Descartes e Sartre, recupera o cogito, o ser e o nada: “Pourtant, j’ existe. [...]Le moi n’est pas seulement haïssable: il n’a pas de place entre un nous et un rien.”

O texto é riquíssimo. Uma obra de arte literária, transitando entre o poético, o êxtase da contemplação, a narrativa das memórias e o lamento pela condição humana, tanto dos excluídos quanto de quem os exclui. Vale a pena ser lido, palavra por palavra.

Boa leitura!

Natanael Gabriel da Silva

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