LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes
Trópicos. Prólogo de Manuel Delgado Ruiz. Barcelona: Paidós Ibéria, 1988,
468 pp.
Foi Belchior quem me levou a ler “Tristes Trópicos”, em
razão de sua canção “Retórica Sentimental”, álbum “Medo de Avião”, 1979. Neste
poema, concreto, ao que nominou de “Cláusula Terceira”, Belchior poetou: “E por
falar em sabiá ... O poeta Gonçalves Dias é que sabia./ § único - Sabe lá se
não queria/uma Europa bananeira!/(Diga lá, tristes trópicos, sabiá
laranjeira!)”.
Primeiro pensei que poderia fazer uma leitura recortada pelo
interesse. Depois verifiquei que precisaria ler um pouco mais, e assim, tomado
pelo encanto, caminhei pelas 468 páginas, fascinado, e viajei com Lévi-Strauss
pelo Brasil, em meados do século XX. Aos poucos, a primeira intuição foi a de
que a obra seguiria os passos de “Facundo”, de Sarmiento, ou de “Os Sertões” de
Euclides da Cunha, o primeiro escrito quase sessenta anos antes que o segundo,
e que emprestaria a este a estrutura literária. Contudo aos poucos, dizia eu, “Tristes
Trópicos” tomou vida própria, de rara beleza, detalhe, poesia, profundidade e,
é claro, muita humanidade.
Talvez seja mesmo por esta razão que o texto não apresenta
uma pesquisa científica no rigor que alguns desejavam, de acordo com o modelo científico
do século XIX (p. 103), mas é um caminhar pela natureza a observar tribos,
deixando transparecer uma melancolia pela perda do puro, não apenas por ser
puro, mas em face da pluralidade da riqueza que o antropólogo encontrara e que
estaria sentenciada ao desaparecimento, morte e esquecimento (p. 467). Não
colocaria Lévi-Strauss, é claro, em sua caminhada, como aquele que apenas e
tristemente, estivesse lamentando perder o seu objeto de pesquisa, isto é, a ter a
conservação da tribo à disposição perene, feito fotografia etnográfica disponível
a qualquer momento. Para ele, o pensamento científico é como uma pedra de ponta
afiada, cujo custo é perder parte do que seja pedra, e ainda assim sua eficácia
irá depender de quão profundamente consiga penetrar como cortante (p. 125). Sua
melancolia, se é que esta seja uma palavra adequada, longe de ser técnica,
prendia-se ao que ocorrera há quatrocentos anos com a chegada de Colombo à
América. Este teria sido o primeiro pecado: chegar e invadir. Logo em seguida
viria o segundo, o ideário do colonizador que trouxera o drama da cultura
imposta: Deus, a moral, e as leis (p. 76). Cada qual destes três elementos
poderia oferecer mais que informações sobre a imposição cultural na formação das
sociedades situadas entre os trópicos, incluindo as asiáticas. No caso de Deus,
dá-se o debate religioso sobre o sagrado e seus dramas não resolvidos no mundo
europeu, e que nitidamente, fora colocado como única fundamentação religiosa,
além do que, exclusiva; a moral, a partir da ética cristã, fora imposta como
comportamento obrigatório e único, sem as questões culturais fossem
compreendidas e que envolviam, ou não, a permissão da homossexualidade tida
como infantil entre os adolescentes em determinada tribo (p. 337), por exemplo;
por fim a Lei, ou o Direito Positivo, que constituía o Estado como pessoa
jurídica, a organizar a sociedade, e impor tanto as obrigações, como regular a
liberdade. Nenhum ordenamento jurídico daria conta, nem mesmo em explicar o
modo de formação social dos Bororos, por exemplo, e a divisão da aldeia
circular em dois sistemas como que espelhados (fig. 43, p. 259). A conjugação
destes três fatores sufocou a cultura nativa e a expropriou da notável
ingenuidade infantil, ainda presente, à época, nas tribos do interior do Brasil.
A crítica declarada de Lévi-Strauss ao colonizador se fixa
na incompreensão dos leitores das possíveis pesquisas etnográficas e que
ficavam a analisá-las confortavelmente nos grandes centros europeus. Temas
sobre a Amazônia, o Tibete e a África eram envolvidos em anedotas e situações
de viagens (p.20), por exemplo, o que certamente mostrava o desprezo pelas
culturas que não compreendiam. Deste modo Lévi-Strauss tenta mostrar a
contribuição de tais selvagens na construção do que poderia ser considerado o
marco do atual mundo europeu, a Revolução Francesa. Diz Lévi-Strauss: “Os relatos de ditos viajantes
se encontram no começo da tomada de consciência etnográfica dos tempos
modernos: por sua involuntária influência, a filosofia política e moral do
Renascimento tomou o caminho que a conduziria à Revolução Francesa” (p. 374).
Ou seja, do Renascimento à Revolução Francesa, a cultura indígena se fazia
presente no que havia de melhor na Europa. A Europa retribuía o ocorrido com
descaso, imposição, e principalmente, destruição cultural, quando deveria se
quedar diante de sua superioridade (p. 439), já que a barbárie estava no mundo
considerado civilizado (p. 442).
Assim, “Tristes Trópicos” é uma costura de aproximação
social/antropológica a partir de várias construções, que passa do ideário
europeu, pelo caminho de Calcutá, São Paulo para, ao fim, chegar às aldeias e à
cultura selvagem do interior do Brasil. São Paulo já contava com a
despersonalização, o que, possivelmente o aproximava, como Estado, do mundo
europeu (p. 101). A experiência de empobrecimento da Índia, pelo efeito Calcutá
e sua explosão demográfica (p. 138), ao que parece, poderia ser tomada como
referência e de provável ocorrência quanto aos destinos do Novo Mundo, terra tão
linda, de recursos naturais quase infindáveis. Na verdade, para Lévi-Strauss a
Ásia é o futuro que nos espera (p.154). Daí a preocupação do autor em descrever
toda a riqueza natural para então colocar nela o humano indígena e sua cultura
criada no entorno de seus próprios valores, tema esse presente no texto como um
todo.
Não é possível fazer uma caminhada por todas as trilhas que
o texto sugere, mas digno de nota é o capítulo 28 (p. 319), quando Lévi-Strauss
trata do problema da linguagem, presente não apenas na fala, mas na cultura, no
corpo e nos desenhos simétricos entre os caduveos, por exemplo (figuras 24 e
25, p. 200), ou ainda na arte dos tupí-kawaíb (figura 52 p. 388 e 53 p. 389),
outro exemplo. No capítulo 28, porém, o autor cuida da passagem da sociedade da
voz para a da letra. Exemplo disso foi o que teria ocorrido entre os nambiquaras que, segundo
Lévi-Strauss, o aprendizado da língua teve um efeito mais sociológico que
intelectual, ao contrário do que se esperava (p. 322). Diferente do que se
poderia pensar, a cultura da voz não retém o personagem histórico exclusivamente
em sua época (p. 323), discurso esse que tem a finalidade apenas de valorizar a
letra. Para Lévi-Strauss o ensino da comunicação escrita teve um objetivo
funesto e desumano: “Se minha hipótese é exata, tem-se que admitir que a função
primária da comunicação escrita é facilitar a escravidão. O emprego da escrita
com uma finalidade desinteressada para obter a satisfação intelectual e
estética é um resultado secundário, e mais ainda quando não se reduz a um meio de
reforçar, justificar ou dissimular o outro” (p. 324). Deste modo, Lévi-Strauss
questiona o ideário educacional como libertador social, e acrescenta: “Acendendo
ao saber presente nas bibliotecas, os povos se fazem vulneráveis às mentiras
que os documentos impressos propagam em proporção ainda maior” (p. 325).
Ao que parece o impacto e encontro com os nativos do
interior transformou, primeiramente, o próprio Lévi-Strauss, diante da
grandeza dos que poderiam ser chamados de selvagens (p. 372), quando descobriu
que os males compreendidos como
degenerescência de inferiores, tinham sido provocados, na verdade, pelo colonizador (p.
385). Em seu longo discurso existencial (principalmente páginas 430/1) e que
merece ser lido na íntegra, Lévi-Strauss compara a sua redescoberta da vida,
narrada nos “Tristes Trópicos” à contemplação da profundidade quando
transitara de Debussy a Chopin: só mesmo a completa ausência de conceito no
belo do clássico é capaz de se aproximar da experiência da redescoberta da
grande orquestra cultural da beleza havida no mundo considerado selvagem. Tudo
isso na tentativa de responder algumas perguntas básicas de seu trabalho: “O que
tinha vindo fazer aqui? O que esperava? Com que finalidade? O que é exatamente
uma investigação etnográfica? É o exercício normal de uma profissão como as
demais, com a única diferença de que o escritório e o laboratório estão
separados do domicílio por alguns milhares de quilômetros?” (p. 430). Foi um
encontro com sociedades organizadas de maneira substancialmente diferente do
que conhecera, além de sistemas religiosos singulares e de rara beleza.
Finalmente, diante de tudo isso, Lévi-Strauss registra um
lamento permeado de ceticismo quanto ao futuro de culturas tão ricas, e que
poderiam indicar o caminho na construção de uma nova sociedade. Ele reconhece
que nem a psicologia, nem a metafísica, nem mesmo a arte, poderiam se dar como
refúgio, ou até mesmo uma possível nova sociologia. Entre
Descartes e Sartre, recupera o cogito, o
ser e o nada: “Pourtant, j’ existe. [...]Le moi n’est pas seulement haïssable:
il n’a pas de place entre un nous et un rien.”
O texto é riquíssimo. Uma obra de arte literária,
transitando entre o poético, o êxtase da contemplação, a narrativa das memórias
e o lamento pela condição humana, tanto dos excluídos quanto de quem os exclui.
Vale a pena ser lido, palavra por palavra.
Boa leitura!
Natanael Gabriel da Silva
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